|

| |
A ambição desmedida e criminosa dos EUA
por Samir Amin
O Autor, egípcio, formou-se em Paris
e dirige o Fórum do Terceiro Mundo em Dacar,
autor da obra A Acumulação à Escala Mundial.
O
mundo produz, os Estados Unidos consomem.
A "vantagem" dos Estados Unidos é a vantagem de um predador cujo deficit
é coberto pelo aporte de outros, consentido ou forçado. Os meios usados
por Washington para compensar suas deficiências são de naturezas
diversas: violações unilaterais repetidas do liberalismo, exportação de
armamentos em grande parte impostos a aliados subalternos, busca de
rendas petrolíferas suplementares (que pressupõe a imposição da ordem
entre os produtores, motivo real das guerras na Ásia Central e no
Iraque).
Desde os anos 80, quando é anunciado
o colapso do sistema soviético, desenha-se uma opção pela hegemonia
que conquista a classe dirigente dos Estados Unidos. Levados pela
vertigem de seu poder armado, desde então sem concorrente, os
Estados Unidos decidem afirmar sua dominação, pelo desencadeamento
de uma estratégia estritamente militar de "controle do planeta". A
estratégia política de acompanhamento do projecto prepara os seus
pretextos, seja quando se trate do terrorismo, da luta contra o
narcotráfico ou da acusação de produção de armas de destruição em
massa. A "guerra preventiva", formulada desde então como um
"direito" que Washington invoca para si, faz abolir logo de início
qualquer direito internacional. A Carta das Nações Unidas proíbe o
recurso à guerra, salvo no caso de legítima defesa; e submete a
condições severas sua eventual intervenção militar, que deve ser
comedida e provisória. Todos os juristas sabem que as guerras
empreendidas desde 1990 são perfeitamente ilegítimas e portanto que,
em princípio, os que assumiram a responsabilidade de desencadeá-las
são criminosos de guerra. As Nações Unidas já são tratadas pelos
Estados Unidos, mas com a cumplicidade de outros países, como foi no
passado tratada a Liga das Nações pelos Estados fascistas. A
abolição do direito dos povos, já consumada, substitui o princípio
da igualdade pelo da distinção entre um Herrenvolk* (o povo dos
Estados Unidos e acessoriamente o de Israel) que tem o direito de
conquistar o "espaço vital" que julga necessário, e os outros povos,
cuja própria existência não é nem mesmo tolerável, a não ser que não
represente uma "ameaça" ao desenvolvimento de projectos dos
autoproclamados "senhores do mundo". Tornamo-nos todos, aos olhos do
establishment de Washington, uns "peles- vermelhas", quer dizer,
povos que não têm direito à existência a não ser na medida em que
não prejudiquem a expansão do capital transnacional americano.
ESTADO DA ECONOMIA Quais são esses interesses "nacionais" que a
classe dirigente dos Estados Unidos se reserva o direito de invocar
como melhor lhe pareça? Na verdade, essa classe possui um único
objetivo - "fazer dinheiro" -, tendo o Estado americano se colocado
aberta e prioritariamente a serviço do segmento dominante do capital
constituído pelas transnacionais dos Estados Unidos.
Esse projecto é imperialista no sentido mais brutal, pois não se
trata de gerir o conjunto das sociedades do planeta para integrá-las
num sistema capitalista coerente, mas somente de saquear os seus
recursos. A redução do pensamento social aos postulados de base da
economia vulgar, reforçada pela disposição dos meios militares que
se conhecem, é responsável por essa derivação bárbara que o
capitalismo carrega em seu interior e que o desembaraça de todo
sistema de valores humanos, substituído pela submissão às pretensas
leis do mercado. Pela história de sua formação, o capitalismo
americano se prestava a esse reducionismo de modo ainda melhor do
que o das sociedades europeias. Pois o Estado americano e sua visão
política foram formados para servir a economia e nada mais, abolindo
por isso mesmo a relação contraditória e dialéctica entre a economia
e a política. O genocídio dos índios, a escravidão dos negros, a
sucessão de ondas de migrações substituindo a maturação da
consciência de classe pelo confronto de grupos que partilhariam
pretensas identidades comunitárias (manipuladas pela classe
dirigente) produziram uma gestão política da sociedade por um
partido único do capital, em que os dois segmentos partilham as
mesmas visões estratégicas globais, partilham retóricas adequadas
para se dirigir a cada um dos "eleitorados" da pequena metade da
sociedade que crê no sistema o bastante para se dar o trabalho de ir
votar. Privada da tradição pela qual os partidos operários
social-democratas e comunistas marcaram a formação da cultura
política europeia moderna, a sociedade americana não dispôs de
instrumentos ideológicos que lhe permitissem resistir à ditadura do
capital.
Se esse projecto deve se desenvolver durante ainda um certo tempo,
ele não gerará mais do que um caos crescente, exigindo uma gerência
cada vez mais brutal a cada golpe, sem visão estratégica a longo
prazo. No limite, Washington não buscará mais reforçar alianças
verdadeiras, o que imporia fazer concessões. Governos fantoches,
como o de Karzai no Afeganistão, cumprem melhor a tarefa enquanto o
delírio da potência militar levar à crença da "invencibilidade" dos
Estados Unidos. Hitler pensava assim.
"VANTAGEM DO PERDEDOR"
A opinião geral mais corrente é que o poder militar dos Estados
Unidos constituiria apenas a ponta do iceberg, prolongando uma
superioridade do país em todos os domínios, notadamente os
económicos, e ainda os políticos e culturais. A submissão à
hegemonia que ele preconiza seria, portanto, incontornável.
O exame das realidades económicas, porém, não dá apoio a tal
opinião. O sistema produtivo dos Estados Unidos está longe de ser "o
mais eficiente do mundo". Ao contrário, quase nenhum de seus
segmentos teria certeza de vencer os seus concorrentes num mercado
verdadeiramente aberto como o imaginado pelos economistas liberais.
É prova disso o deficit comercial do país que se agrava de ano para
ano, tendo passado de 100 mil milhões de dólares em 1989 a 450 mil
milhões em 2000. Além disso, tal deficit se refere a praticamente
todos os segmentos do sistema produtivo. Mesmo o excedente de que se
beneficiavam os Estados Unidos no domínio dos bens de alta
tecnologia, que era de 35 mil milhões em 1990, desde então deu lugar
a um déficit. A concorrência entre o Ariane e os foguetes da Nasa, o
Airbus e o Boeing mostra a vulnerabilidade da vantagem americana.
Diante da Europa e do Japão para os produtos de alta tecnologia, da
China, da Coréia e dos outros países industrializados da Ásia e da
América Latina para os bens manufacturados triviais, diante da
Europa e do Cone Sul da América Latina para a agricultura, os
Estados Unidos não triunfariam, provavelmente, sem o recurso dos
meios "extra-económicos" que violam os princípios do liberalismo
impostos aos seus concorrentes!
A economia americana vive como parasita em detrimento de seus
parceiros no sistema mundial. "Os Estados Unidos dependem, para 10
por cento de seu consumo industrial, de bens cuja importação não é
coberta pelas exportações de produtos nacionais" (E. Todd., Depois
do Império, página 80).
O mundo produz, os Estados Unidos consomem. A "vantagem" dos Estados
Unidos é a vantagem de um predador cujo déficit é coberto pelo
aporte de outros, consentido ou forçado. Os meios usados por
Washington para compensar suas deficiência são de naturezas
diversas: violações unilaterais repetidas do liberalismo, exportação
de armamentos em grande parte impostos a aliados subalternos, busca
de rendas petrolíferas suplementares (que pressupõe a imposição da
ordem entre os produtores, motivo real das guerras na Ásia Central e
no Iraque). Resta dizer que o essencial do déficit americano é
coberto pelos aportes em capitais provenientes da Europa e do Japão,
aos quais se deve acrescentar a punção exercida em nome do serviço
da dívida imposta à quase totalidade da periferia do sistema
mundial.
A solidariedade dos segmentos dominantes do capital transnacional de
todos os parceiros desse trio é real, e se exprime por sua adesão ao
neoliberalismo globalizado. Os Estados Unidos são vistos nessa
perspectiva como os defensores (militares, se necessário) desses
"interesses comuns". Washington não busca "partilhar com equidade"
os lucros de sua liderança. Os Estados Unidos se empenham, ao
contrário, em tornar vassalos seus aliados, e dentro desse espírito
não estão preparados para deixar a seus aliados subalternos do trio
mais do que concessões menores. Esse conflito de interesses estará
destinado a se agudizar a ponto de desencadear uma ruptura na
Aliança Atlântica? Não é impossível, mas é pouco provável.
O conflito promissor se situa num outro terreno. O das culturas
políticas. Na Europa, uma alternativa de esquerda se mantém sempre
possível. Essa alternativa imporia simultaneamente uma ruptura tanto
com o neoliberalismo quanto com o alinhamento às estratégias
políticas dos Estados Unidos. O excedente de capitais que a Europa
se contenta até agora em "colocar" nos Estados Unidos poderia então
ser alocado a um relançamento econômico e social, sem o que esse
relançamento continuará impossível. Mas, assim que a Europa
escolhesse, por esse meio, dar prioridade a seu desenvolvimento
econômico e social, a saúde artificial da economia dos Estados
Unidos entraria em colapso e a classe dirigente americana se veria
em confronto com seus próprios problemas econômicos e sociais. Eis
por que "a Europa será de esquerda ou não será nada". As causas que
estão na origem do enfraquecimento do sistema produtivo dos Estados
Unidos são complexas. Mas são estruturais. A mediocridade dos
sistemas de ensino geral e da formação, produto de um preconceito
tenaz que favorece sistematicamente o "privado" em detrimento do
serviço público, é uma das razões mais importantes da crise profunda
que a sociedade dos Estados Unidos atravessa.
A opção militarista dos Estados Unidos ameaça todos os povos. É
proveniente da mesma lógica que foi no passado a lógica de Adolf
Hitler: modificar pela violência militar as relações económicas e
sociais em favor do Herrenvolk do momento. Essa opção, ao se impor à
frente do cenário internacional, sobredetermina todas as conjunturas
políticas, pois a efectivação do desencadeamento desse projecto
fragilizaria a um ponto extremo os avanços que os povos pudessem
obter por suas lutas sociais e democráticas. Pôr em xeque o projecto
militarista dos Estados Unidos se torna então a tarefa primordial, a
responsabilidade maior, para todos. Sem dúvida, um certo número de
governos do Terceiro Mundo é odioso. Mas o caminho para a necessária
democratização não passa, certamente, por sua substituição por
regimes fantoches vindos nos blindados do invasor, abandonando os
recursos de seu país à pilhagem das transnacionais americanas.
O combate para pôr em xeque o projecto dos Estados Unidos é, com
certeza, multiforme. Comporta aspectos diplomáticos (defender o
direito internacional), militares (se impõe o rearmamento de todos
os países para enfrentar as agressões projectadas por Washington -
nunca esquecer que os Estados Unidos utilizaram armas nucleares
quando tinham o seu monopólio e renunciaram a elas durante o tempo
em que não tinham mais esse monopólio) e políticos (notadamente no
que se refere à construção europeia e à reconstrução de uma frente
dos não-alinhados.
O combate contra o imperialismo dos Estados Unidos e sua opção
militarista é o combate de todos os povos, de suas vítimas maiores da Ásia,
África e América Latina, dos povos europeus e japoneses condenados à
subordinação, mas também igualmente do povo americano. Saudemos aqui a coragem
de todos aqueles que, "no coração da besta", recusam se submeter, como seus
predecessores recusaram ceder ao macarthismo dos anos 1950. Como aqueles que
ousaram resistir a Hitler, eles conquistaram todos os títulos de nobreza que a
história pode conceder. A classe dominante dos Estados Unidos será capaz de
voltar atrás do projecto criminoso a que aderiu? Uma pergunta que não é fácil de
ser respondida. Evidentemente, algumas derrotas políticas, diplomáticas e talvez
mesmo militares poderiam encorajar as minorias que, no seio do establishment dos
Estados Unidos, aceitariam renunciar às aventuras militares nas quais seu país
se engajou.
Publicado originalmente na revista brasileira
Caros Amigos , edição 73, abril de 2002.

Não esquecer:
The Abu Ghraib Prison
Photos |