Discurso de Inauguração da Primeira Pós-Graduação do CEA

(ano lectivo 1998/99)

Concretizamos todos nós hoje um sonho antigo. Aqui, nesta cidade de Lisboa onde a fascinação do Oriente se fez sentir secularmente, nesta enseada amena que foi porto de Fenícios e que um dia se tornaria a Lixbuna muçulmana, povoada por gentes do Magrebe, da Arábia, da Síria e do Iraque, nesta cidade que um dia foi também porta dos tecidos e especiarias da Índia para o mundo europeu, ganham hoje estatuto de especialidade académica em pós-graduação universitária os Estudos Asiáticos. Neste mesmo extremo ocidental da Europa onde se fez sempre sentir o fortíssimo magnetismo do polo oposto do continente eurásico. A Ásia entra em pleno no mundo académico português, pela mão, ainda modesta é certo, da Universidade Independente, instituição vanguardista no desbravar de novas áreas de ensino, onde a inovação, que não confundimos com o improviso, tem sempre vencido a rotina, que não assimilamos à maturidade. Que o momento foi o justo, não tenhamos dúvidas. Neste mesmo ano em que iniciamos o nosso empreendimento despontam aqui e além outros projectos que, embora menos abrangentes e quase sempre centrados na sinologia, não deixam de provar que os tempos são propícios e venturosos para os nossos propósitos. Inaugurou-se no mês passado o Centro Ismaelita de Lisboa e ontem mesmo o primeiro templo hindu de Lisboa. A Ásia desembarca em força nesta velha enseada fenícia, baptizada por gentes do Levante.

Designámos os nossos estudos como asiáticos e não orientais. Porque o Oriente é um conceito relativo, brumoso e indefinido, aparente e ilusório como o curso do Sol que o determina, enquanto a Ásia é uma realidade concreta, um continente, mas sobretudo um conteúdo de gentes e culturas com quem sempre teremos de aprender. Recusamos qualquer aproximação eurocêntrica à Ásia, resistimos à tentação de estudar os vetustos vestígios do Portugal asiático de antanho. Muito pelo contrário: neste mesmo país que outrora invadiu a Ásia para lhe ensinar a sua fé e a sua política, para a absorver na sua economia, apenas para perceber, tarde demais talvez, que o suposto aluno era de facto um mestre, confessamo-nos profundamente devedores e rendidos à grandeza do espírito asiático, pelas qualidades que o adornam e de que tanto careceremos sempre, como as da subtileza, do requinte, da magnificência a par da renúncia, da coragem e da resignação mais extremas, da paciência como base de toda a virtude, da reflexão especiosa a par da acção mais eficaz, da determinação e da genuinidade vital e profunda das suas crenças.

A nossa actividade tem pois o modesto objectivo de formar estudantes despertos para as realidades asiáticas, tão próximas e não obstante tão distantes, dotá-los de conhecimentos teóricos e práticos indispensáveis para um conhecimento que terão de aperfeiçoar pela vida fora pelo trabalho de campo cumprido em visitas contínuas às muitas culturas que por lá os esperam. Começámos, como era de esperar, pelas línguas. Há dois anos que funciona o curso de Hindi, o primeiro em Portugal, e inauguramos hoje também o de Árabe. A curto prazo terá início o Tibetano e temos planos para o Sânskrito e o Bahasa. Sem o estudo aturado das línguas, sem o acesso às fontes originais, sem a mundividência que um léxico e uma sintaxe documentam, todo o estudo seria superficial, pretensioso e vão. E por isso alicerçámos nas línguas da Ásia todos os nossos programas de estudos presentes e futuros. Estamos cientes que o desafio linguístico não trará resultados espectaculares a muito curto prazo. Mas uma vez mais, imbuídos de paciência asiática, saberemos esperar pelos resultados que chegarão na hora própria, e verificaremos pelas portas do conhecimento então abertas o bem empregue que foi o nosso esforço. Como diz Deus ao Profeta no Sagrado Corão: «só os pacientes recebem a sua recompensa por inteiro» (39.10).

Com as línguas por alicerce começamos hoje também uma pós-graduação na nossa especialidade. Um projecto algo elitista e ambicioso, para estudantes que queiram coroar a sua formação, qualquer que ela seja, com as jóias refulgentes da Ásia. Responderam ao nosso chamado estudantes de todo o país: das Beiras, do Norte, do Algarve tivemos solicitações e contactos. Ficaram os melhores, os que por vezes ainda imersos em batalhas profissionais e académicas não deixaram de se armar da coragem necessária para quererem caminhar sempre mais longe e mais além nos estreitos e agrestes caminhos que conduzem à Ciência. Estruturámos o nosso curso como uma tenda das estepes asiáticas, seguro abrigo num deserto de aridez e desconhecimento: suspendemo-la em sete pilares de sabedoria, a Filologia, a Filosofia, a Religião, a História, a Arte, a Política e a Economia.

Preparamos também, com os cuidados que se justificam, um futuro curso anual (que antecede e anuncia uma variante final de licenciatura) onde os homens do Ocidente terão por fim acesso à sabedoria budista tibetana, durante mais de um milénio confinada aos mosteiros e parcimoniosamente dispensada aos noviços, e que hoje, complementada pelas artes da música, da decoração do templo, da poesia, graças à vontade e ao esforço dos budistas portugueses aqui ilustremente representados pelo Sr. Filipe Rocha, vem encontrar porto seguro na nossa casa, onde estudantes ávidos de consciência mais ainda do que de ciência partilharão as descobertas espirituais do homem tibetano, habitante desse país que entre todos está mais alto e mais perto do Céu.

Repositório de lições e de informações, o nosso centro constrói pacientemente uma Biblioteca, que atraiu já doações generosas da Embaixada do Japão, da Fundação Gulbenkian e da Fundação Oriente. Através desses livros os estudantes podem viajar visualmente em belas obras fotográficas, ampliar conhecimentos de política, história e economia, preparar as suas expedições com guias de viagem actualizados, ou mesmo explorar a melhor colecção portuguesa de CD-ROMS da especialidade. Temos uma página na Internet que tem recebido os parabéns de websurfers de todo o mundo. Os nossos links alternativos para todos os países asiáticos são também uma magnífica introdução à variedade das culturas asiáticas e à sua presença virtual na rede das redes.

Outros projectos nos animam, algumas dificuldades nos esperam. Não desistimos da acção, seguindo o conselho de Sri Krishna a Arjun no Bhagavad-Gita, 3.8: «executa a acção que te compete, a acção é sempre melhor que a inacção». Se os antigos Romanos afirmavam que do Oriente vem a luz, EX ORIENTE LUX, eu atrevo-me a fazer votos para que a partir de hoje, com a vossa colaboração, seja possível dizer-se:

EX INDEPENDENTE LUX.


Centro de Estudos Asi?icos (CEA)
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