Goethe e a educação no Wilhelm Meister
Em
Portugal pode parecer estranho ouvir falar em Goethe como pedagogo, ou como
tendo interesse pelos problemas da educação. Ao nome de
Johann Wolfgang von Goethe
(1749 – 1832) ligamos a ideia do grande escritor, poeta e dramaturgo, o autor
do Werther e do
Fausto, um desses colossos da literatura que, como
Homero, Shakespeare, Victor Hugo, são glórias da sua pátria, e mais do que da
sua pátria, da Humanidade. Contudo, Goethe, vastamente admirado e glorificado no
campo das letras, é muitas vezes insuficientemente conhecido no seu labor
científico e frequentemente se ignora o contacto que teve com todos os campos de
atividade espiritual nos variados ramos da cultura.
Espírito aberto a todos os estímulos, as respostas que lhes
deu foram sempre cunhadas com a marca da sua personalidade genial. O
desenvolvimento total das suas múltiplas capacidades levou-o a uma grande
aproximação ao ideal do
uomo universalis renascentista. No campo das ciências naturais foi
precursor de Darwin, tendo sido o primeiro a aplicar o conceito de 'evolução'.
Na física estudou particularmente a ótica fazendo experiências, formulando
teorias e dedicando-se à observação do efeito emocional das cores, tendo se
antecipado à moderna psicologia experimental. Dado o facetado múltiplo do seu espírito e a pluralidade
dos seus interesses, seria para admirar se nada nos tivesse deixado escrito sobre
a sua visão do problema educacional. Tanto mais que, na sua época,
Rousseau
focou o problema pedagógico com uma luz tão intensa e tão nova que
necessariamente chamou a atenção de todo o mundo culto para a temática
educativa, estimulando os espíritos e obrigando-os ou a uma adesão entusiástica
ou a uma reação violenta. E outros mais, além de Rousseau, agitaram essa questão
cuja importância foi nesse tempo bem sentida.
Goethe, pois, não só pelas necessidades interiores do seu
espírito, como pelas condições da sua época, não podia deixar de tomar uma
atitude perante um problema de tão vasta repercussão e de interesse humano tão
capital. É no seu romance Wilhelm Meister que vamos procurar a sua
mensagem pedagógica revelada em um momento muito especial e característico. Esta
sua obra é constituída por duas partes as quais, embora uma seja a continuação
da outra, são um tanto independentes e têm até características diferentes. A
primeira intitula-se: Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister (Wilhelm Meisters Lehrjahre,
1795/96), e a segunda: Os Anos de Viagens de Wilhelm Meister (Wilhelm
Meisters Wanderjahre, 1821). Ora ao procurarmos descobrir os ideais
educativos de Goethe na primeira parte da obra, que pode constituir um todo em
si mesma, e que ele escrevera sem ideia de continuação, damos connosco perante
uma tarefa ingrata.
Wilhelm Meister não é um livro pedagógico à maneira do
Emílio de Rousseau em que o autor nos exprima clara e pormenorizadamente
o seu sucesso como educador, e em que o seu propósito seja expor para a nossa
edificação o seu método e teorias e ilustrá-las em um caso concreto. Nada disso.
Wilhelm Meister é um romance do tipo a que os alemães chamam
Bildungsroman ('romance de formação'), ou seja, romance que tem por centro
um único herói cujas fases sucessivas de contacto com o mundo nos mostram como
atinge uma harmonia consigo e com a vida. No Wilhelm Meister
Goethe narra-nos a carreira e o desenvolvimento espiritual do herói durante a
sua mocidade, e apresenta-nos os diversos meios com que convive. A expressão da
vida é o interesse de primeiro plano do livro; a ação cheia de peripécias e a
intriga funcionam como elementos importantes para captar a atenção do leitor. O
problema da educação é secundário, isto é, não foi a ideia dominante a que os
outros elementos se subordinaram.
Se houve uma ideia germe deste romance de Goethe é a que na
versão primitiva aparece em relevo: a apresentação de um plano de reforma do
teatro. O fragmento dessa primeira versão, descoberto só no séc. XX, chamava-se:
a Mensagem Teatral de Wilhelm Meister (Wilhelm Meisters theatralische
Sendung, 1776-1785). Goethe desenvolveu e ampliou este plano e elaborou o
romance em que o fundamental é a vida. Os outros problemas, como o da reforma do
teatro e o da educação, tornam-se assim acessórios. Além disso, a obra não
apresenta para a educação, como para a reforma do teatro, um plano positivo,
nela ambos os temas são tratados pela negativa, apresentando o que era
insatisfatório e urgia alterar. A imposição de sólidos princípios, a
subordinação do todo a uma ideia, implicaria uma diminuição da riqueza e da
multiplicidade da vida. Goethe, sem nenhuma estreiteza
moralista, tende mais a mostrar o que é a vida do que a indicar como ela deveria
ser.
É no final da primeira parte e na segunda que vemos Goethe
enveredar por um caminho um tanto divergente: tratar com ideias e procurar
esclarecer e justificar certos princípios. Isso deveu-se à influência do seu
amigo e filósofo Schiller,
[Goethe com Schiller, estátua em
Weimar → ] que muitos conselhos e sugestões lhe deu para
escrever o Wilhelm. Se observarmos a primeira parte verificaremos que é
difícil descobrir o critério pedagógico de Goethe através dos seus personagens,
ou dos resultados que atribui à prática desses critérios. Se Goethe só tivesse
escrito
Os Anos de Aprendizagem teríamos grande dificuldade em tirar uma
conclusão puramente pedagógica sobre a sua mensagem. Mas a segunda parte vem em
nosso auxílio porque aí Goethe apresenta-nos com mais clareza a sua visão.
Interessante será notar que a sua solução resultará da coordenação das três
direções apresentadas nos Anos de Aprendizagem. Vamos, pois, começar pela
observação da primeira parte para ver como Goethe apresenta o problema
educativo: a linha geral do romance consiste em mostrar como e porquê o jovem
Wilhelm Meister se enganou na vida. Wilhelm, filho de um negociante, não tem
interesse pelo comércio e sente forte inclinação para o teatro. É levado pela
sua tendência, e por vários fatores do acaso, a associar-se a uma troupe
teatral ambulante e a participar nas suas atividades. Quando o pai morre,
Wilhelm, um rapaz cheio de boas intenções, julga ver no teatro o meio ideal para
a formação do seu espírito e do seu gosto e pisa pela primeira vez o tablado no
papel de Hamlet. Uma vez com influência dentro do grupo de teatro, cujo diretor
é seu amigo, procura pôr em prática os planos de reforma, já por si pensados.
Wilhelm até aí tem tido grande fé no Destino. Pensa que o Destino o encaminhou
para seu bem, atuando através dos acasos que o levaram ao contacto com a
troupe ambulante, impelindo-o com mão benévola para onde as suas inclinações
o chamavam.
Quando Wilhelm entra para o teatro conhece pouco os homens
porque analisou em si a natureza humana e não nos homens, e conhece a vida mais
através dos poetas do que da sua observação e experiência. Wilhelm, com esta
bagagem de entusiasmo, confiança no destino e ingenuidade, sofre grandes
desilusões. Em breve começa a descobrir que não tem vocação para ser ator e que, na
vida de teatro, não adquiriria a sua tão almejada formação intelectual, estética
e física. Desanimado, passa a considerar perdido e estéril todo o tempo passado
naquele meio. É nesta altura que encontra reunidos vários nobres com quem já na
sua carreira tivera contacto separadamente. Descobre que este grupo de excelentes
membros da aristocracia tinha formado uma sociedade com o fim de ajudar
secretamente vários jovens a alcançar uma formação, proporcionando-lhes meios
para atingirem a mais sólida preparação para a vida. Esta sociedade há já algum tempo
se interessara por Wilhelm e a ocultas tinha-o ajudado na sua carreira tornando
possíveis certas realizações suas e, por outro lado, misteriosamente o
aconselhara a deixar o teatro. Wilhelm admira-se que, tendo aquela sociedade
pretendido levá-lo ao bom caminho e sabendo que o teatro não era a sua vocação,
não tivesse mais eficazmente procurado tirá-lo da senda errada. Vem então a
conhecer qual a estranha teoria educativa seguida pelos componentes da
sociedade, principalmente por um certo Abade muito influente sobre os membros de
uma nobre e excelente família por ele educados e em cujo castelo, o Castelo da
Torre, sede da sociedade, Wilhelm irá passar a viver.
Wilhelm é admitido no seio do grémio e é-lhe concedida a sua
carta de aprendizagem. Esta era conferida àqueles que, devido aos erros
cometidos na vida, reconheciam com nitidez o fim para que tinham nascido e
estavam aptos a seguir corajosa e alegremente o seu caminho. Quando Wilhelm
reconhece os erros do passado, e reconhece um filho seu como filho, o Abade
considera-o absolvido pela Natureza e acabados os seus anos de aprendizagem.
Houve uma certa precipitação nesta concessão do diploma, como o próprio Abade
mais tarde verificará. Entretanto, urge explicar as estranhas teorias do Abade
que o levaram a deixar Wilhelm lavrar em erro. Reduzem-se a três aspetos
fundamentais:
- o essencial no homem é o exercício perfeito da
atividade;
- este só é possível com base na vocação ou predisposição
natural e o meio de descobrir essa predisposição natural em cada indivíduo e
de a revelar sem possibilidade de dúvida é deixar o homem tomar livremente
contacto com a vida.
Como caso particular deste segundo princípio a teoria do Abade
considera os caminhos falsos que o indivíduo segue na vida não como prejudiciais,
mas sim como tendo uma ação benéfica e fecunda. Desenvolvendo estas teorias,
segundo as próprias expressões do Abade, vamos ouvi-lo dizer: o dever do
educador não é livrar o aluno do erro mas, pelo contrário, deixar que o educando
beba dele a largos tragos. Aquele que só prova ligeiramente o erro conserva-o por muito tempo
achando-lhe encanto, mas o que bebe da taça do erro até a esgotar acaba por
reconhecer o seu mal, a menos que seja louco. Só pelo erro se pode curar o erro.
Quanto às tendências e inclinações, o Abade considera ser essencial que o
indivíduo siga a sua inclinação para ter uma atividade eficiente.
- todos têm uma capacidade especial e não há capacidades
indeterminadas. Só a nossa educação, diz o Abade referindo-se à da sua
época, torna os indivíduos indecisos; suscita desejos e em vez de animar
impulsos ou de ajudar as verdadeiras inclinações, dirigindo o esforço para
objetos em desacordo com a nossa natureza. Por isso vale mais que uma
criança ande mal pelo seu caminho do que siga bem por caminhos alheios. No
primeiro caso, ao encontrar o bom caminho, de acordo com a sua natureza,
nunca mais o abandonará; no segundo caso estará sempre em perigo de sacudir
o jugo alheio e de se entregar a uma liberdade incondicionada.
É
evidente que o ponto fraco das teorias do Abade está no que respeita ao erro e à
forma de o evitar. Se, contrariamente ao que o Abade espera, o indivíduo
permanecer no erro, e esgotando-o, lhe não reconhecer o mal? Só em naturezas
excecionalmente boas tal sistema poderia dar resultado, como muito bem
reconhece no livro uma figura feminina, a tia da família do Castelo da Torre.
Esta tia, cujas confissões enchem todo o sexto livro da primeira parte do
romance, teve uma formação absolutamente diferente da dos sobrinhos educados
pelo Abade, e era o que Goethe chama uma Schöne Seele – ou seja, uma
'Bela Alma'. Observe-se que 'Bela Alma' é um dos conceitos fundamentais do
Idealismo Alemão e pode dizer-se que
Christoph
Martin Wieland (1733–1813), primeiro a exprimir este ideal na Alemanha
no seu romance Geschichte des Agathon (1766-1767), em parte o bebeu em
Anthony Ashley Cooper, 3º Conde de Shaftesbury (1671–1713) e nos
filósofos gregos. A 'Bela Alma' era aquela em que as inclinações naturais e a
voz do dever se identificam, em que não há divórcio entre o ideal e o real.
A Bela Alma apresentada na obra por Goethe era pietista.
Tinha-se formado em contacto com Deus, o seu grande Amigo Invisível. Conta-nos
como, analisando-se continuamente, descobriu que a sua alma só encontra
verdadeira felicidade, verdadeira paz e consolo, quando se dirige para Deus e
com ele entra em contacto. Para isso afasta todos os obstáculos, como os
divertimentos mundanos, e continuando a observar-se e a pôr a nu o seu íntimo
chega à conclusão de que só a crença, a fé absoluta em Deus e na Redenção, a
poderiam livrar do mal, impedindo o desenvolvimento dos germes malignos da nossa
natureza corrupta. Purifica-se de tal modo que tudo faz como impulso, nada como
mandamento ou lei; as suas intenções, depuradas pelo seu convívio com o divino,
levam-na sempre ao Bem.
Esta é uma alternativa educativa oferecida no romance em
oposição às teses do Abade. Há ainda uma terceira direção, representada por uma
outra alma bela, um ser de eleição, sobrinha da senhora pietista e discípula do
Abade: Natália, com quem Wilhelm vem a casar. Natália não é de opinião que se
deixe o homem livremente procurar o seu caminho e errar. Acha que vale mais
errar conhecendo as regras que o podem evitar, do que errar segundo o nosso
livre arbítrio. Há certas leis que se devem incutir no espírito da criança,
porque diz ela: “Vejo na natureza humana uma lacuna que só pode ser
preenchida por uma lei. Só a lei moral pode dar um apoio seguro à vida”. E
quanto à ação do educador diz: ”Quem não ajuda no momento próprio parece-me
que nunca ajuda; quem não aconselha no momento próprio, parece-me que nunca
aconselha”.
Temos assim expostas as três possibilidades educativas
apresentadas nos Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister. Wilhelm, no fim
do livro, alcança uma felicidade que ele confessa não merecer: a mão e o amor de
Natália. Mas Wilhelm ainda não adquiriu a maturação de espírito suficiente que
lhe permita seguir com autonomia e sem vacilações o seu caminho na vida. Wilhelm
estava convencido que errara, mas não estava seguro do modo como remediar o
erro. Mesmo sentindo o que não deveria fazer, isso não lhe diminuía a ignorância
daquilo que deveria fazer. O próprio Abade parece ter-se compenetrado disso e
aconselha-o, antes do casamento, a fazer uma viagem pela Itália. Assim acaba a
primeira parte da obra com problemas em suspenso e por esclarecer. Schiller
sentiu-o e foi essa a razão que o levou a instigar Goethe a escrever uma
continuação do romance. Schiller, em carta a Goethe, diz-lhe que gostaria que
ele tratasse com mais clareza e mais a fundo certas questões, isto é,
completasse a formação, a Bildung de Wilhelm, e que este (citando as suas
próprias palavras) "aparecesse com perfeita autonomia, segurança, liberdade e
firmeza arquitetónica". Goethe sente a justeza das reivindicações do amigo,
aproveita-lhe o conselho, e põe mãos à obra: escreve a segunda parte do romance
intitulada: Os Anos de Viagens de Wilhelm Meister.
A intriga e a ação romanesca faltam quase em absoluto nesta
segunda parte. Em compensação, além da pedagogia, trata de política, de
economia, de moral e de religião. O livro torna-se um repositório de preceitos
derivados da experiência do velho Goethe e chega a oprimir pelo seu didatismo.
Wilhelm Meister e os seus companheiros aparecem-nos adquirindo a verdadeira
Bildung: descobrem que o homem não é feliz enquanto o seu esforço
incondicionado não determina a si próprio uma limitação. Aprendem a renunciar e
chegam à conclusão de que o melhor que cada um tem a fazer na vida é limitar-se
a exercer bem um ofício, que à verdadeira formação pertence saber a fundo uma
coisa e não o saber de tudo um pouco sem nada exercer com eficiência. É um ideal
de ação útil do indivíduo em prol de si e da comunidade. Wilhelm e a Sociedade
da Torre têm agora um projeto de emigração para a América. Tencionam aí
constituir um Estado assente em bases mais justas do que os estados europeus e o
estudo dessa estrutura que Goethe apresenta tem chamado a atenção dos
interessados pelos problemas de organização política. Sobre educação basta-nos
saber que os colonos desse Estado tinham como condição essencial para a admissão a
perícia no exercício de qualquer ofício. Wilhelm torna-se então um distinto
médico cirurgião e todos os seus amigos, homens e mulheres, aprendem uma
profissão e nela praticam com afinco.
Mas Wilhelm, tendo ele próprio encontrado o seu caminho na
vida, defronta-se com um problema; o da educação de seu filho Félix. Quer que
Félix obtenha a sua formação sem ter de percorrer um caminho tão cheio de
enganos e de rodeios como o dele. Para atingir tal objetivo é-lhe recomendada a
Província Pedagógica como lugar ideal para uma educação perfeita. Wilhelm
resolve levar para lá o filho e, como é aqui que está a chave do segredo da
pedagogia de Goethe, vamos seguir Wilhelm e ver o que aí encontra e como é
esclarecido sobre o que lá se passa. Quando Wilhelm penetra na Província e à
medida que nela avança procurando as entidades a quem a sua carta de
apresentação vai dirigida, a sua curiosidade é suscitada pelo que vê nos campos
que atravessa. Os trabalhos agrícolas são executados por rapazes de diversas
idades, vestidos todos com trajes, cores e feitios diferentes. Quando os
visitantes – Wilhelm e o filho – passam por eles, acompanhados por um professor
vigilante, que andava dirigindo os trabalhos e que se tinha oferecido para levar
Wilhelm aos diretores, nota que os rapazes cumprimentam de três modos especiais.
Os menores de entre todos olhavam para o céu e cruzavam os braços no peito; já
outros punham as mãos atrás das costas e olhavam sorrindo para a terra; e outros
ainda punham-se em sentido e em fila, virando a cabeça para a direita. Wilhelm,
admirado com estes gestos, pergunta ao seu guia o que significam. Este lamenta
não o poder elucidar pois essa prerrogativa pertenceria aos diretores, mas
afirma-lhe que em breve a sua curiosidade será satisfeita. Só lhe explica que o
modo de saudação é o sinal pelo qual os professores reconhecem o grau de
desenvolvimento dos educandos. Mais adiante, Wilhelm nota que os rapazes fazem
os seus trabalhos cantando canções apropriadas às diferentes tarefas que
executam. O professor dá então a conhecer que a música é a base da educação
naquela Província. É o primeiro grau de educação e todo o resto assenta nela e é
por ela ensinado, até mesmo a moral e religião. Diz-lhe que os exercícios musicais
facilitam a aprendizagem da leitura e da escrita e ensinam a valorizar a
matemática. Como Wilhelm perguntasse se não era ensinada música instrumental, o
seu guia afirma-lhe que sim, mas que era cultivada em outra zona da Província. Aí
se treinavam os principiantes a dominar as dificuldades técnicas, podendo
afastar-se suficientemente uns dos outros de modo a não se incomodarem
mutuamente com as desafinações naturais na aprendizagem de qualquer instrumento.
Chegam por fim os viajantes ao edifício onde esperam encontrar
o Diretor, ou regente superior. Não encontram este, mas Wilhelm é recebido pelos
seus três delegados que guardam os santuários. São estes que irão esclarecer
Wilhelm quanto aos princípios que orientam a Província: a criança sã e bem
nascida recebeu da natureza tudo o que necessita para a sua vida e que, na
maioria dos casos, se desenvolve por si; há uma única coisa que ninguém trás
consigo quando nasce e que, contudo, é essencial para o homem ser
verdadeiramente humano: a veneração. É este valor que o educador deve imprimir
no homem e é essa tarefa que se realiza na Província. Aí ensinam um triplo
conceito que só sendo realizado sob essa forma obtém a máxima força. É
ministrado em três graus sucessivos:
- no primeiro grau ensina-se a veneração pelo que está
acima de nós e exige-se das crianças o testemunho de que há um Deus lá no
alto, que se lhes revela nos pais e nos superiores: a este grau corresponde
a primeira forma de saudação;
- o segundo grau é o da veneração pela terra e por aquilo
que está abaixo de nós; nesse grau aprendem os educandos que a terra é, ao
mesmo tempo, ponto de subsistência e de prazer, mas também de muita dor;
- a terceira espécie de veneração é a do homem pelo seu
semelhante e o que o leva a fazer face, seguro de si, ao mundo e aos seus
iguais.
O medo, dizem os representantes do Superior da Província, é
natural no homem, mas a veneração não. A vida do homem natural é um constante
vaivém entre o temor e a liberdade. Temer é fácil, mas incómodo; venerar é
difícil, mas cómodo. O sentido de veneração deve ser ensinado ao homem e só
nalguns eleitos, os santos ou os deuses, se desenvolve a partir da própria
natureza. O objetivo das religiões e a sua dignidade está nestas três formas de
veneração. Ali não se considerava nenhuma religião que tivesse por base o medo. As
três religiões são: a étnica, que assenta na veneração do que está acima de nós;
todas as chamadas religiões pagãs são desta espécie. A segunda é a filosófica
que se fundamenta no que é igual a nós. O filósofo faz descer a si tudo o que
lhe fica superior e subir a si tudo o que lhe é inferior. Só assim, nesta
posição intermédia, se encontra o verdadeiro sage e só ele, no verdadeiro
sentido cósmico, vive de verdade. A terceira religião baseia-se no que está
abaixo de nós: é a cristã. Mas são estas três religiões juntas que formam a
verdadeira religião. Das três espécies de veneração resulta no homem a veneração
por si próprio e, por sua vez, a partir desta mesma todas elas se desenvolvem. O
homem chegado ao mais alto grau pode-se considerar como o melhor, criado por
Deus e pela natureza.
Wilhelm fica maravilhado com a elevação e a justeza destas
doutrinas, aprovando também o modo como a pouco e pouco se iniciam as crianças
nesta tríplice veneração: pelos gestos, cujo valor simbólico lhes é depois
explicado até que finalmente lhes revelam o seu significado mais alto. Os três
representantes do Superior ainda têm que mostrar a Wilhelm mais alguma coisa
para ele ficar a conhecer bem em que mãos deixa o filho. Por isso, levam-no a
visitar uma galeria em cujas paredes está pintada a História do Mundo tal como
vem na Bíblia. Viu representados em frisos os sucessos correspondentes da
História do Mundo de outras religiões pagãs, como a dos gregos, por exemplo. Era
aí que, por meio dessas representações, era ensinada a religião étnica. Passam
seguidamente a outra galeria onde era apresentada a Doutrina e a Vida de Cristo
por milagres e parábolas: os primeiros transformam o vulgar em extraordinário,
as segundas transformam o extraordinário em vulgar. Ali, dizem os três guardas
do Santuário, está a doutrina viva e indiscutível; não é a opinião sobre o bom e
o justo, mas o próprio bem e o justo irrefutáveis, e justificam que só
apresentam a vida de Cristo até à sua despedida dos Apóstolos na Ceia, sem
apresentar cenas da Paixão porque foi em vida que Cristo foi filósofo, o sage,
elevando até si os pobres e infelizes e afirmando a sua origem divina. A sua
vida é mais cheia de ensinamentos do que a sua morte. Como Wilhelm, contudo, se
admirasse de que não se apresentassem como exemplo de sublime martírio as cenas
da Paixão de Cristo, eles explicam que têm demasiada veneração por elas para as
apresentar em imagens, mas que não fazem delas segredo para os educandos. Depois
disso nada mais pode ser revelado a Wilhelm. Aquilo mesmo é o que é ensinado
aos rapazes, em diferentes graus de desenvolvimento. Na religião proveniente da
veneração do que está abaixo de nós só são verdadeiramente iniciados quando
acabam a sua educação e saem da Província. Querem que eles entrem na vida tendo
em mente que a terra os exporá a muitas provações e dores.
Wilhelm é convidado a assistir à grande festa anual, a que
costumam estar presentes os pais dos alunos, e que era a festa de despedida para
aqueles cuja educação estava completa. Nessa altura, Wilhelm visitaria as
regiões da Província em que eram praticados os vários ramos do ensino, segundo
normas especiais. Antes de sair da Província, Wilhelm aprende que a variedade de
fatos e cores que encontrara provinha da teoria defendida pelos Superiores de
que o uniforme encobre o caráter da criança e as suas particularidades. Wilhelm
sai satisfeito da Província pensando que seu filho gozará do benefício de uma
boa educação. E continua as suas viagens. Acompanhemo-lo agora de novo quando lá
volta, passados meses, para visitar o filho, inquirir dos seus progressos e
para assistir à festa. Encontra Félix guardando cavalos, Félix que, antes de entrar
na Província, mostrava ser um cavaleiro entusiasta. Depois das primeiras
expansões, Wilhelm dirige-se com o filho para o lugar onde se realizava a feira,
que era a festa dessa região. Aí encontra o mestre vigilante, seu antigo guia,
que lhe explica muito do que vê e lhe mostra que, apesar da aparente balbúrdia,
ele e outros mestres mantêm a ordem e a disciplina. Wilhelm pensa encontrar-se
em Babel: à sua volta ouve falar todas as línguas do mundo. O mestre conta-lhe
que à província acorriam educandos de várias terras e raças e que eles, para
impedirem que os rapazes se agrupassem em partidos segundo as nacionalidades,
tinham determinado que, em cada mês, todos falassem uma só língua. A festa a que
Wilhelm estava assistindo era a dos guardadores do gado. Estes, para não se
animalizarem, compensavam essa atividade rude e puramente física dedicando-se ao
estudo aturado de línguas e da gramática. Félix decidira-se pelo italiano, e
como ali a música estava na base de tudo, nas horas vagas da sua vida de pastor
cantava agradáveis canzoni. Como cada região em que se cultivava um ramo
especial de atividade tinha uma festa para si, Wilhelm vai visitar a região da
música instrumental. Num vale ameno encontram-se várias cabanas espalhadas e a
tal distância que os sons produzidos em uma não chegam às outras. Nesta zona não
só se aprende música instrumental e coral, cultiva-se ao mesmo tempo a poesia
lírica e a dança. Os alunos aprendem como para benefício de ambas se
interinfluenciam a poesia e a música. Wilhelm sai da região da música e entra
na das artes plásticas. Aí encontra uma cidade cujas construções se distinguem
pela beleza, harmonia e conforto. Como Wilhelm pergunta por que há tanta
diferença entre as habitações dos músicos e as dos artistas plásticos e o seu
guia responde-lhe: os músicos vivem dobrados sobre si mesmos e seria prejudicial
estimular-lhes demasiado o sentido da visão, que se exerceria em prejuízo da
audição; pelo contrário, o artista plástico deve constantemente transformar o
seu sentido do belo em formas exteriores, e se é chamado a construir coisas
belas deve viver no ambiente do belo.
Naquela cidade todos trabalham segundo
leis rígidas, nada é deixado ao arbítrio do que aprende. A matéria em que
trabalha, o instrumento, e o modo como dele se deve servir, tudo lhe é fornecido
sem possibilidade de escolha. E são aqueles que têm verdadeiro génio e talento
que melhor se submetem a estas leis especiais da arte, porque reconhecem que a
arte se chama justamente arte por não ser natureza. Aqui não há festa, todo o
ano para eles é uma festa. E diz o professor: o arquiteto é ensinado a não
construir erros; o que tem que ficar de pé deve ficar bem de pé e o mais
duradoiro possível; para isso o plano é pensado e discutido centenas de vezes.
Quando é executado tem que ser com segurança, não deve haver tentativa na
construção. Aos escultores e pintores é dada maior liberdade; apresentam um
plano e se este é suscetível de execução ela será permitida, sendo-lhes geralmente
concedido que inutilizem o trabalho se este, depois de executado, lhes não
agradar. Wilhelm, lembrando-se do que vira nas outras regiões, pergunta qual a
arte cultivada a par das artes plásticas e obtém como resposta: poesia épica. Os
alunos não liam nem declamavam poemas de poetas antigos ou modernos; era lhes
dado o assunto mitológico ou lendário, e cada um, segundo as possibilidades do
seu talento, o transformava em poesia. Wilhelm tem ocasião de apreciar vários
artistas trabalhando na execução de uma obra representando um grupo de figuras
em batalha. A unidade de conceção é dada por um artista que, aproveitando as
sugestões e contribuições dos seus colaboradores, as coordena e elabora no seu
espírito, formando um todo harmónico. Ao mesmo tempo Wilhelm tem ocasião de
apreciar como era cultivada a outra arte: um jovem mostra-lhe o seu talento
épico improvisando um poema sobre o grupo em que está trabalhando e consegue dar
vida e movimento às figuras pela sua narração. Wilhelm, depois de os ter ouvido
cantar uma espécie de hino, perguntou ao professor se a arte dramática não era
cultivada em parte alguma daquela instituição. Veio assim a saber que a arte de
Thália ou Melpómene era tida em pouca conta na Província. Apesar de se servir
das outras artes, em vez de lhes dar impulso, estragava-as, embora geralmente se
acreditasse o contrário. Contudo, como era princípio basilar da Província que
nenhuma vocação natural fosse forçada ou desaproveitada, se se manifestassem com
persistência tendências histriónicas em um educando este seria mandado para
qualquer grande teatro da Europa, tal era o respeito que existia pela inclinação
natural.
Estamos chegados ao fim desta peregrinação pela Província. Os
três representantes do Superior, autoridade máxima, tinham-se espalhado pela
Província para ver, com a ajuda dos professores, como as coisas corriam e, se
necessário fosse, fazer as alterações que lhes ditasse a experiência. Wilhelm,
depois de um banquete na região das minas, despede-se da Província convencido da
excelência dos princípios em que nela era baseada a educação. E nós,
acompanhando Wilhelm, qual é a impressão com que ficamos desta estranha e
fantástica realização, que, aliás, não é produto puro da imaginação de Goethe?
Parece que teve em mente, ao descrevê-la, o instituto de
Philipp
Emanuel von Fellenberg (1771-1844) em Hofwyl, na Suíça. De um modo geral
ficamos com a impressão de que por detrás deste cenário estranho da Província se
encontram princípios teóricos sãos e válidos, e outros criticáveis. Tem-se
frequentemente considerado esta fantástica instituição pedagógica como uma
utopia. E é uma utopia em dois sentidos: no sentido de ser impossível de
realizar e no sentido dos resultados da sua realização. Nos aspetos apresentados ela
não corresponde ao fim que os princípios teóricos têm em vista. A sua falta de
viabilidade prática deriva do facto de Goethe ter deixado imprecisos e
indeterminados muitos pontos importantes para a sua realização. Deixa-se
arrastar por considerações artísticas e religiosas e descura pormenores
importantes para dar à Província Pedagógica uma aparência mais real. Por isso
ficamos com a impressão de cenário e de teoria disfarçada em prática. É também
devido ao seu aspecto teórico que é utopia nos resultados da prática que propõe.
Porque essas teorias ou não dão o resultado correspondente, ou dão-no utilizando
processos por vezes pitorescos e aos quais não vale a pena recorrer.
Para ilustrar estas considerações acerca da Província vou
procurar distinguir o que nela é princípio são e válido, o que é princípio
criticável e o que é prática que não corresponde ao princípio. No domínio das
aquisições valiosas no campo teórico destaca-se o princípio fundamental
educativo da Província que consiste na descoberta da vocação no educando e no
seu desenvolvimento na atividade correspondente. Atualmente foi reconhecido o
valor e a importância deste princípio que impera incontestavelmente na educação
moderna. Um outro princípio importante na pedagogia de Goethe é este: a tarefa
do educador consiste em preencher uma lacuna existente na natureza humana, dando
ao homem um apoio religioso-moral apresentado sob forma das três venerações que
levam à tríplice religião. Goethe justifica assim as exigências de Natália e da
Tia que, na primeira parte do romance, objetavam à teoria da educação do Abade a
sua falta de direção moral-religiosa, a única que, segundo elas, permitiria que
o homem seguisse o seu caminho na vida sem hesitar, sem vacilar, com passo
seguro e decidido para a verdadeira dignidade humana. A finalidade proposta,
criar no homem uma convicção moral e firme, é plenamente justificada. Que para
tal haja necessidade de fazer intervir a religião parece-me discutível. E que
essa convicção seja imposta, mesmo que fosse sob o aspeto da doutrina
ético-religiosa mais sublime, é o que já não parece digno de aprovação. São
lamentáveis como processo educativo alguns aspetos de utilidade moral imediata
no decorrer da educação, como por exemplo o de recorrer à religião das forças
superiores para incutir no espírito do educando o respeito e a veneração pelos
pais e pelos professores. Também quando Goethe preconiza, na sua Província, que a
música seja a base de todas as aquisições espirituais ele apresenta-nos um conceito
criticável. É uma fantasia de aspeto aliciante e bem caracteristicamente alemã.
Em qualquer outra parte do mundo seria difícil ter surgido tal ideia, que só na
Alemanha, aliás, teria probabilidades de execução. Mas dificilmente se encontra
esta sensibilidade musical tão ampla e fortemente noutros povos. Goethe,
aliás, ao tornar a música a base obrigatória de toda a atividade da Província
Pedagógica, ia de encontro ao seu principio fundamental do respeito pela vocação.
O privilégio dado à música em detrimento das outras artes como veículo de todas
as aquisições e condição sine qua non da Bildung seria um obstáculo à formação de quantos educandos não
possuíssem talento musical. Injustamente se veriam inibidos de levar a cabo a
sua educação.
Uma outra conclusão surpreende: a aprendizagem das diversas
atividades só na prática (a não ser talvez a arquitetura). Através da Província
não encontramos rastro de ensino teórico. Todos se encontram em treino e
praticando. Também nisto parece haver exagero. Se, na verdade, a prática deve
desempenhar um papel importante na aprendizagem, se se aprende melhor fazendo do
que ouvindo dizer como se faz, isto não significa que a teoria não seja também
necessária e útil. A prática e a teoria são complementares e devem caminhar lado
a lado, a prática fortificando a teoria e a teoria guiando a prática. Goethe não
afirma, de resto, que na sua Província não fosse ministrado o ensino teórico. E
ficamos assim na dúvida se ele realmente existiria. Podemos ser levados a crer que
sim, mas em grau muito reduzido. É um dos tais pontos deixados no vago, e uma
das tais insuficiências que impediriam a realização da Província a partir dos
seus dados. Goethe, ao contrário de Rousseau, é partidário da educação em comum.
Se o homem na vida tem que viver e colaborar com outros homens, é conveniente
que cresça e se eduque em contacto com os companheiros que serão os homens da
sua geração. É um ponto de vista defensável nos limites em que não implique um
afastamento completo da família, como o que se verifica na Província Pedagógica.
Aí os filhos só veem os pais uma vez por ano e perdem o contacto com o ambiente
do seu lar, cujas doçuras e benéfica influência ignoram e talvez nunca aprendam
a apreciar. Goethe condena explicitamente a educação dos filhos junto dos pais:
a estes atribui sempre a fraqueza de amar as imperfeições dos filhos e
desconhecer-lhes as suas reais qualidades. Não haverá aqui uma certa dose de
preconceito?
Falta referir um caso que ilustra o desacordo entre a
realização prática e a boa intenção teórica. É o caso das línguas. Goethe como
poliglota sentiu e muito bem o valor que elas tinham na educação do indivíduo,
aumentando o âmbito das suas possibilidades de conhecimento e compreensão do
semelhante. Mas repare-se como ele se propõe conseguir esse objetivo na
Província: obrigando os rapazes a falar uma língua cada mês. Suponho que os
infelizes só falariam à vontade um mês por ano: aquele em que a língua
obrigatória fosse a da sua terra natal. Porque, de resto, apesar da prática
intensiva que tinham em cada mês, nunca poderiam vir a dominar bem as outras
línguas. Aquilo que tivessem conseguido aprender em um mês esqueceriam nos meses
seguintes.
É notável que também não encontremos na Província a
aprendizagem e prática da ciência, nem mesmo o seu rastro sequer. Da parte de um
cientista é inesperado. Para nós é tanto mais lamentável porque Goethe, como
artista, tem considerações interessantíssimas acerca da arte, dos seus fins e
meios, e da natureza especial de cada um dos seus ramos. Isto mesmo constitui um
dos componentes de maior interesse da Província, independentemente do valor da
teoria fundamental que informa a sua realização e do estímulo que é para a nossa
curiosidade e reflexão o seu aspeto e cenário estranhos.
Damos assim por concluída a nossa apreciação crítica das
teses educativas de Goethe, tal como expressas através da aprendizagem e das
viagens de Wilhelm Meister.
Estudo inédito redigido em 1943 como parte dos trabalhos da licenciatura em
Filologia Germânica para a cadeira de 'História da educação', regida pelo
Professor Delfim Santos.
Revisto pela Autora em 2009.
Agradecimento a Palmira Matela pela digitação do texto.
Outros estudos em português sobre o Wilhelm Meister:
Maurício SANTORO (2007)
Aprendizagem de Wilhelm Meister
Artur SANTOS NETO (2009)
A Fenomenologia do Espírito de Hegel e o romance de formação de Goethe
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das traduções de Manuela de Sousa Marques, reunindo toda a obra publicada e a inédita.
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