Hermann
Hesse em Portugal
Apontamentos sobre a sua tradução e receção;
versão portuguesa dos últimos parágrafos do
capítulo final de Ele e o Outro
ilustrações: aguarelas de H. Hesse
O
inesperado e honroso convite para colaborar na comemoração do centésimo
aniversário do nascimento de H. Hesse, autor contemporâneo a que me liga
fervorosa admiração, suscitou-me dois impulsos aparentemente divergentes mas
que de facto convergiram numa imediata ligação a este ciclo festivo
promovido pelo Instituto Alemão de Lisboa. E, ao explicar a ambivalência
dessa reação, desde já justifico a minha presença aqui, junto de vós, para
uma breve e despretensiosa conversa que tem mais o cunho do depoimento
pessoal do que o de discursiva ou sistemática exposição de um tema.
Pertencendo ao número dos fiéis admiradores – e cada vez
mais lucidamente fiéis – deste venerável mestre de humanismo, desde o dia já
remoto de 3 décadas em que me foi dado ler um livro de capa verde da editora Surkamp, intitulado Weg nach Innen, a proposta para conversar
convosco sobre o tema Hermann Hesse em Portugal avivou-me com funda emoção a
lembrança desse primeiro contacto, do impacto recebido e da admiração sempre
renovada e sem intermitências que desde então dediquei à sua obra. Por outro
lado, o tema que me era gentilmente proposto, (porventura com fundamento na
circunstância de ter sido eu a pioneira da versão para português de alguns
textos de Hesse) vinha recordar-me o retumbante malogro dessa longínqua
tentativa de difundir em Portugal o conhecimento de um grande escritor, e o
reduzido êxito de um trabalho que visava despertar a curiosidade e a
apetência do leitor por todos os escritos saídos da pena de Hesse.
Com efeito, ao pretender neste momento reunir indícios que permitissem
avaliar a repercussão dessa tentativa (e de outras quiçá dirigidas para a
mesma finalidade e inclusivamente provenientes de mais autorizadas vozes),
tanto no domínio da tradução como no da interpretação e chamada de atenção,
dispunha de bem escasso material. O conjunto de dados objetivos que me foi
possível recolher, revelou-me que a penetração do nome e dos escritos de
Hesse em Portugal ficou muito aquém das expectativas de todos nós, seus
poucos mas fervorosos admiradores.
Se procedermos ao balanço da carreira editorial de
Ele e o Outro – título em português da narrativa Klein und Wagner
publicada em 1952 – e também da de
Narciso e Goldmundo publicada em 1956,
verificamos que ao longo dos 27 anos que mediaram entre o lançamento da
primeira tradução e a atualidade, e dos 21 que passaram sobre a segunda,
estas obras não atingiram largas camadas de um público leitor; constata-se,
com mágoa, que Hesse não foi ainda descoberto em Portugal e que a hora da
sua influência em grande escala ainda não soou para nós.
Aliás, a publicação em 1971 de uma versão portuguesa de
Siddhartha, assinada por Fernanda Pinto Rodrigues, confirmava a
necessidade que se fazia sentir de uma nova investida nesse sentido, apoiada
pela fama mundial e pela voga desse belo romance-poema nos EUA dos anos 60.
Com efeito, os 2.000 exemplares de Ele e o Outro,
lançados no mercado há 25 anos, só há pouco se esgotaram, conforme
informação obtida junto da editora; e os 2.500 de Narciso e Goldmundo
ainda nem sequer foram vendidos todos.
Este momento de homenagem, por ocasião do centenário do
nascimento do nosso autor, constituirá decerto o ensejo adequado para dar
novo impulso à difusão de uma obra que, conforme o Dr. Volker Michels acaba
de nos relatar, tem tiragens fabulosas nos mais diversos idiomas do mundo,
tiragens que ascendem à ordem dos milhões. Compreende-se o interesse em
aproveitar esta oportunidade para fazer o ponto das tentativas realizadas
nesse sentido em Portugal através de uma resenha. Reconheci todavia que, por
minha parte, mais não poderia que dar uma modesta contribuição para essa
pesquisa. Os apontamentos que tenho o gosto de vos apresentar não são fruto
de uma sistemática e rigorosa investigação. Circunscrevem-se
predominantemente a factos de que tive mais próximo ou direto conhecimento,
e a referências que o meu interesse por tudo quanto respeitasse a este tema
me levou a registar. De qualquer modo, poderão valer como ponto de partida
para futuros estudos, mais rigorosos e exaustivos, que permitam fundamentar
hipóteses ou extrair conclusões de válido alcance sócio-literário.
Após
este necessário preâmbulo, que desde já limita a minha intervenção ao âmbito
de um depoimento de cunho pessoal passo à enumeração dos dados objetivos que
chegaram ao meu conhecimento:
Foi em 16 de Novembro de 1946 que Delfim Santos, filósofo e pedagogo
português recém-chegado da Alemanha onde vivera alguns anos de estudo da
filosofia alemã, publicou no vespertino lisboeta Diário Popular um artigo
intitulado «H. Hesse, Prémio Nobel da Literatura» [Hermann Hesse,
Prémio Nobel da Literatura, Diário Popular 16-11-46, OC
2º vol., Lisboa: 2009, 89-90]. Julgo ter sido esta a primeira chamada de atenção para o
prestígio e significado da obra de Hesse. Nesse artigo, o professor
português (que, diga-se a propósito, tanto haveria de contribuir para o
conhecimento da cultura alemã entre nós) evoca num sugestivo apontamento o
ambiente de segredo e confidencialidade em que os admiradores do autor do
Steppenwolf mencionavam o seu nome nos anos que precederam o termo da
2ª Guerra Mundial.
«Recordo-me, escreve ele, que numa reunião de
artistas e escritores na Casa da Imprensa de Berlim alguém se abeirou de nós
com o intuito talvez curioso de falar com um português de coisas de
interesse comum... Explica-se pois que esse alguém (célebre mundialmente
como escultor) após a primeira troca de impressões nos fizesse a pergunta:
Quem julga ser o maior romancista alemão da atualidade? A resposta, um pouco
timidamente expressa por motivos fáceis de compreender, foi apenas: Hermann
Hesse. Quando tal ouviu, o nosso interlocutor, visivelmente emocionado,
tomou-nos o braço e dirigindo-se ao criado ordenou: «Champanhe, bitte!»
Ficamos algumas horas a um canto da sala, trocando impressões, e a
enaltecermos em admiração comum esse homem extraordinário de que não
convinha falar abertamente. O nosso interlocutor havia sido companheiro de
estudos e tão próximo amigo do artista que este, num dos seus livros, o
tinha feito personagem principal».
Nesse mesmo artigo Delfim Santos previa que a atribuição
do Prémio Nobel desencadeasse uma onda de interesse que levaria qualquer
editor português atento a apresentar em Portugal algumas das suas obras mais
representativas.
A previsão, que era um voto, não se realizaria tão cedo.
Mas foi ainda por seu incitamento e empenho que
oito anos mais tarde surgiria a primeira versão portuguesa de uma novela de
Hesse. Na introdução que escreveu para esta edição de Klein und Wagner,
Delfim Santos refere que a autorização do escritor para a versão portuguesa
lhe fora concedida pessoalmente, sob a condição da sua supervisão, aquando
de uma visita feita ao eremita de Montagnola em 1948. Só em 1952, porém,
a Editora Guimarães – e honra seja prestada à sua diretora Maria Leonor
Cunha Leão que há pouco desapareceu do nosso convívio – tomou a decisão de
lançar um texto de H. Hesse na sua coleção «Obras Primas Contemporâneas». A
tradução estava feita, guardada na gaveta. Revolvendo essas recordações,
aqui retomo o depoimento pessoal; se recorro, porém, a pormenores que a
retrospeção me permite fixar, sirvo apenas o intento de mostrar a
influência insuspeita, mas tantas vezes decisiva, de fatores
circunstanciais e subjetivos na génese de um projeto: nesse caso o desígnio
objetivo de apresentar ao leitor português uma amostra da obra de um grande
escritor e humanista. Pode-se perguntar, e com sobeja justificação, porque
teria incidido a escolha em Klein und Wagner, narrativa que,
embora notável e do período da plena maturidade do escritor, não tinha a
fama e a mais larga audiência de um
Lobo das Estepes, um
Siddhartha ou um
Narciso e Goldmundo?
V ejo-me
obrigada a confessar aqui que o que determinou a escolha de Klein und
Wagner foram fatores de ordem emocional e vivencial que prevaleceram
sobre a ponderada reflexão crítica. Lida num momento de crise pessoal, era a
segunda novela inserida em Weg nach Innen, o livro de capa verde
das fabulosas descobertas, e desencadeou a adesão nunca mais desmentida ao
pensamento, ao estilo, aos temas e conteúdos das obras de Hesse. Escrita em
1919, ano de fecunda criação que viu nascer a primeira parte de
Siddhartha e outros escritos, após a superação do tremendo abalo dos
anos da Grande Guerra, constituiu esta obra para mim uma revelação e um
esclarecimento que me levaram ao sucessivo consumo de toda a literatura e
bibliografia hessiana de que pude lançar mão. Daí, no propósito de tomar
extensivo esse impacto a outros menos privilegiados no conhecimento do
alemão, foi um pequeno passo em breve iniciado, sem atender à probabilidade
de eventuais condições para a sua publicação mas, evidentemente, tendo em
mira esse objetivo. Porquanto se era certo que respondia ao chamamento
daquela obra e como que retribuía a influência que exercera em mim – móbil
de pessoal complacência que agora julgo poder analisar na dialética do escolher-ser-escolhido
– o motivo claro e preponderante era contribuir para
outros encontros de análoga repercussão. Eis por que razões e ponderações
especulativas foram alheias à versão dessa história fascinante de um pequeno
funcionário e chefe de família exemplar que um dia transpõe as barreiras da
cidadania conformista e conformada, revolta-se, liberta-se, desespera-se e
só encontra a revelação do sentido da vida no instante derradeiro que
precede a sua morte nas plúmbeas águas de um lago de Itália.
Publicado o livrinho com o título Ele e o Outro,
de que adiante vos darei razão, não me chegou notícia de ampla
recetividade. Acredito que a alguns terá tocado, apesar do filtro da
tradução, como aquele fortuito companheiro de uma viagem de autocarro, com
aspeto de operário qualificado, que vi, com grata surpresa, tão embebido na
sua leitura que nem deu pela interpelação do revisor.
Entretanto, o primeiro impulso estava dado, os
contactos
firmados, e a editora, essa sim, não esmoreceu o entusiasmo: manteve o seu
compromisso e dispôs-se a cometimento de maior fôlego. Desta feita a obra
escolhida foi Narziss und Goldmund. E, se me não me trai a
memória, o consenso da crítica europeia que unanimemente enaltece este
romance de Hesse terá pesado decisivamente na escolha. Muitos críticos a
consideram uma das mais belas narrativas da literatura alemã. E. R. Curtius,
nos Ensaios Críticos de Literatura Europeia, refere-a em termos
encomiásticos: «Um livro maravilhoso na sua inteligência poética, no
caldeamento de elementos românticos com outros modernos, psicológicos e
psicanalíticos»; Thomas Mann sublinha que o Narziss é uma criação
romanesca que em sua pureza e encanto é verdadeiramente única. Outras
razões, decerto, teriam condicionado a opção que neste caso foi refletida e
atenta à finalidade visada. Provavelmente consideramos que a sua estrutura
muito clara e simétrica, a transparência da linguagem que sustenta esse
romance de formação de um artista, desenrolado num cenário medieval
estilizado, mas sem pitorescos revivalismos, eram condições favoráveis à
imediata comunicação de um prazer estético e que, por conseguinte, bem
justificavam aceitar o desafio que logo o primeiro longo parágrafo do
prelúdio lança ao tradutor.

Adiante retomarei o fio das considerações que me
responsabilizaram pela tradução desta ou daquela obra e do modo pelo qual
tentei levá-la a cabo. Para já importa prosseguir o todavia incompleto
relato da receção hessiana em Portugal, e seguir a pista das referências,
artigos e trabalhos de crítica e exegese que surgiram por outras vias que
não a da aproximação do leitor comum através da tradução. O que a esse
respeito nos revela o interesse manifestado no âmbito universitário e os
artigos de revistas e páginas literárias de jornais, desde o rodapé de um
matutino até ao ensaio de alto nível interpretativo, mostram-nos todos eles
que Hesse, em Portugal, é conhecido por um círculo seleto de intelectuais e
especialistas, não tão numeroso quanto seria desejável, mas real e
efetivamente empenhado em dar a conhecê-lo. Nas universidades não faltam,
como seria de esperar, trabalhos versando temas hessianos – da sua vida e
obra. Assim vejamos: na Universidade de Lisboa regista-se na secção de
Estudos Germanísticos a apresentação de dissertações para licenciatura em
1951, 1957, 1961, 1968, respetivamente sobre o «conceito de vida em alguns
romances de Hesse», «aspetos do problema da crise na obra de Hesse», «o
problema existencial na obra de Hesse» e «alguns aspetos do romance
Narciso e Goldmundo». Na Universidade de Coimbra constam igualmente dos
ficheiros do Instituto de Estudos
Alemães
teses para licenciatura datadas de 1948, 1951 e 1953 que se ocupam do
problema religioso na obra de Hesse, de reflexos da sua vida e personalidade
no seu labor literário e do estudo da sua poesia. Trabalhos inéditos,
infelizmente remetidos às prateleiras de bibliotecas especializadas, logo
que cumprida a sua função limitada à obtenção do grau académico De origem e
nível universitário, porém docente, impõe-se citar aqui com particular
realce os estudos dedicados a aspetos específicos da obra de Hesse da
autoria de Ivete Centeno, da Universidade Nova de Lisboa, que têm vindo a
lume em revista e livro. A autora também participa nesta comemoração, e sem
dúvida terá dado dos mais relevantes contributos para o conhecimento e
interpretação dos textos de Hesse por parte da intelligentsia
portuguesa. Menciono as suas "Notas sobre a Viagem ao Oriente", inicialmente
publicadas na revista
Biblos em 1975, e posteriormente incluídas numa coletânea de ensaios do
mesmo ano: 5 Aproximações: Peter Weiss, A. Ramos Rosa, Alquimia e
Misticismo, Fernando Pessoa, Hermann Hesse; uma reflexão completada em
1978 no seu ensaio: Símbolos de Totalidade na Obra de Hermann Hesse:
Demian, Siddhartha, Die Morgenlandfahrt, Das Glasperlenspiel. Da
autoria de um novelista e ensaísta que é também professor universitário e um
dos nomes de maior relevo nacional e projeção internacional das letras
portuguesas contemporâneas,
Urbano
Tavares Rodrigues, cabe mencionar o
curto mas denso ensaio de 1958 [2ª ed. 1966, 3ª 1978] intitulado 'A morte de
Narciso-Goldmundo' incluso em O Tema da Morte.
Outros livros dedicados à literatura alemã, como os
apontamentos de E. Rocha Gomes, contêm páginas sobre aspetos quer da
personalidade, quer da obra de Hesse. E mais, como o de M. Cecília da Silva
e Sousa e outros, haveria a mencionar se o meu intuito não se limitasse,
como de antemão preveni, a um relance do que até hoje chegou ao meu
conhecimento. Pretendia no entanto aludir ainda, porque data do ano
longínquo de 1948 e pela razão que de imediato apontarei, a um artigo
assinado por Vasco de Lemos Mourisca publicado na página literária do
Primeiro de Janeiro, matutino de grande circulação no Norte do País,
que contém a par da chamada de atenção para «este grande poeta de quem pouco
se sabe fora das esferas universitárias», as primeiras e porventura únicas
traduções publicadas de dois poemas de Hesse: «Vida de uma Flor» e «Este é o
meu sofrimento». Também Otto Maria Carpeaux publicou ainda na década de 40
um interessante artigo sobre Hesse no Mundo Literário, revista de
cultura prestigiosamente colaborada, porém de restrita expansão. No entanto,
tudo quanto se possa rastrear do apelo que esse grande humanista e Mestre do
Jogo das Pérolas de Vidro tenha tido para um público erudito que mesmo
quando não domina o alemão lê à vontade o inglês ou francês, tudo isso,
diria, representa apenas uma parte da repercussão que desejaríamos a sua
obra obtivesse no nosso país à semelhança do que sabemos ter acontecido em
toda a parte. E julgo que todos estamos de acordo em que essa conquista de
largas camadas de leitores, jovens sobretudo, só por via de tradução se
alcançará como se verificou pelo mundo fora. Tê-lo-á reconhecido a editorial
Minerva que promoveu em 1974 a versão portuguesa de Siddhartha,
(assinada por F. Pinto Rodrigues) talvez a narrativa de Hesse mais difundida
em todos os continentes.
Parece-nos
que dependerá em grande parte da continuidade de uma persistente atividade
de tradução o poder dar-se em Portugal um fenómeno idêntico ao que surgiu
noutros países, com particular incidência nas camadas jovens. Tenho
esperança de que por essa via, e não por imitação de modas, os jovens e
todos os que não perderam a juventude da alma e do espírito, encontrarão na
obra de Hesse eco e resposta a muitos dos seus problemas, clarificados e
harmonizados na expressão estética do romance, da narrativa e do poema.
Porque o inconformismo da juventude perante os males do
nosso tempo e outros que são de todos os tempos, encontra-se expresso na
aventura espiritual que este autor sempre jovem descreve numa obra, cujo
tema fundamental é o destino do indivíduo desenrolando-se no confronto com
esses males, em demanda da sageza e do amor fati pelo caminho do
intransigente auto-desvendamento.
A influência que a obra de Hesse exerceu na atualidade,
acerca da qual ouvimos o Dr. VoIker Michels com a aguda clarividência e a
autoridade que lhe assiste na sua qualidade de atual editor de todo o
espólio hessiano, radica numa aspiração a um renovo humanista ou,
simplesmente, à experiência de novas formas de vida mais sãs, mais
esclarecidas, em que o indivíduo se realize mais autêntico e inteiro, «Para
ser grande sê inteiro» disse um poeta português, Hesse poderia dizer: «Para
ser homem, sê inteiro». É essa mensagem de integralidade e autenticidade que
assumirá infalivelmente importância para a nossa juventude, quando o
descobrir.
No dia em que casualmente deparei com uma referência a H. H. num
livro sobre a Comunicação onde não esperava encontrá-lo – Guerra e Paz na
Aldeia Planetária de Marshall McLuhan – compreendi num lampejo
revelador que a intenção profunda que me ditou o exercício de tradução fora
a confiança que depunha na sua vis formativa. McLuhan comenta o
impressionante sucesso de Siddartha junto da mocidade do seu tempo
«que se sente estranha num mundo fragmentado e mecanizado cujas estruturas
classificadas oferecem apenas uma gaveta a cada indivíduo», «um mundo onde
as cidades e as escolas apresentam modos de experiência descontínuos e não
integrais ... ». Acentuando a não integralidade e a descontinuidade da
experiência da grande maioria dos habitantes do mundo ocidental, o
germanista e polémico filósofo canadiano aponta para o que considero a força
indiretamente pedagógica da obra de Hesse.
O
poeta e o artista que é H. Hesse sobreleva o pensador e o moralista que nele
coexistiam, induzindo-nos porventura a relegar para segundo plano o valor da
sua ação de humanista nas angustiosas conjunturas do seu tempo. Para nós
impõe-se a componente formativa que assume cônscio da problemática que na
nossa época lhe é inerente, muito embora recusasse a missão específica de
propugnador de qualquer doutrina ou ensinamento. Se considerarmos, porém, a
sua obra no plano dos géneros, dos temas, dos esquemas, e da narrativa,
reconhecemos-lhe uma feição de ordem incontestavelmente formativa. A própria
estrutura dos seus romances e narrativas insere-se na tradição genuinamente
alemã do Bildungsroman, o que já é indício da sua profunda
preocupação com a formação do indivíduo: não pertencem ao âmbito genérico do
romance social ou psicológico; alinham estruturalmente com antepassados como
o Hyperion, o Ofterdingen, o Grüner Heinrich
na senda do portentoso modelo do Wilhelm Meister, e todos sabemos
que o tema fundamental da sua obra é a aventura concreta e espiritual de um
ser humano em demanda de um sentido para a vida; e que o esquema da ação das
suas narrativas nos desvenda o processo dialético da plena eclosão do
destino de um indivíduo através dos conflitos do «eu», consigo próprio e com
o mundo, e mediante sínteses sucessivas das antinomias e bipolaridades em
que a condição humana o envencilha. O modo como os seus heróis vivem a
transcensão da dualidade Natureza-Espírito, Indivíduo-Comunidade,
Consciente-Inconsciente, pode constituir uma ordenação da experiência tanto
mais válida para nós, que vivemos numa época dilacerada por solicitações de
sinais opostos, quanto mais aberta e isenta de dogmatismo ou unilateral é a
opção como no caso de Hesse, em que se assume como radical solidariedade.
Sendo axiologicamente centrada no valor do indivíduo e da sua irredutível
«diferença», é eminentemente crítica e intransigente na procura da verdade
em todos os planos: do conhecer, do sentir, do agir. A verdade possível ao
indivíduo constitui-se no mundo de Hesse pela severa disciplina da verdade
para consigo próprio, para com o ser individual em constante desvendamento:
a fidelidade ao Eigensinn, móbil das sínteses do vivido e do
pensado. O trânsito da permanente auto descoberta é o paradigma das suas
histórias. Nelas as situações de crise nunca são iludidas nem resolvidas por
adesão a formas de tranquilizadora salvação ou de apego ao passado. Mas o
itinerário em que os seus protagonistas avançam na auto-realização não
renega o que do passado possa ter perene valor. É assim que, sem
conservadorismo, Hesse preserva valores de cultura greco-cristã,
enriquecidos pelo encontro da sabedoria hindu e chinesa, realizando desse
modo outra síntese de relevante importância para o mundo em que vivemos, tão
valiosa como o caráter não-doutrinário da sua posição. A sua mensagem abre
caminhos mas não aponta soluções: liberta e ordena mediante a «catarsis
da arte»; a sua missão, tal como ele próprio a vê, é libertar e
solidarizar-se. Numa carta a um leitor, escrita em 1950, diz: «Eu sou um
poeta, um homem que procura e se confessa; compete-me servir a verdade e a
sinceridade (e à verdade também pertence o belo, que é uma das formas do seu
aparecer); tenho uma missão, mas pequena e limitada: ajudar a compreender e
a perseverar outros que também procuram, quanto mais não seja dando-lhes a
consolação de não estarem sós».
E será precisamente porque ao artista não compete a função de resolver,
corrigir, propor ou ensinar que a sua "vis" formativa conquista um espaço de
mais eficaz comunicação libertadora. É precisamente enquanto órgão de
«contemplação da realidade, a mais pura possível», que reside o alto valor
da sua transmissão por via estética. Hesse confessa que sempre duvidou da
pedagogia e sempre confiou na suave força persuasiva do belo e da arte,
reconhecendo que na sua mocidade fora mais educado por essa força e por ela
despertado para o mundo do espírito do que por quaisquer educações oficiais
ou privadas. E propôs-se dar continuidade a essa missão em tempos difíceis,
ciente como poucos da dificuldade e das insatisfações que comporta esse
serviço numa época de transição em que as categorias estéticas sofreram
tamanha desintegração.
Se
me decidi a sublinhar esse aspeto da obra de Hesse, é porque ele terá
justificado para mim o arrojo de meter ombros a uma empresa cuja importância
ultrapassaria as insuficiências do translado no campo da consecução
literária e estética. O tradutor dificilmente se apercebe, por falta de
adequada perspetiva, dos êxitos e inêxitos da sua tarefa de transportador
de cargas sémicas entre veículos diferentes. Não esquece, porém, a lenta
paciência, na procura da solução que esteticamente mais o satisfaça, a
esforçada busca de alternativas até encontrar – não a mais próxima
equivalência, mas a menos distante do original – cônscio de que a sua
própria captação do original é uma entre outras possíveis. No seco dizer de
um linguista que define a tradução como «a rearticulação de uma experiência
estranha num modelo que nos é familiar» já está apontada a dificuldade de
versão de qualquer texto mesmo que predominantemente denotativo. Tratando-se
de textos acentuadamente conotativos como os literários e os poéticos, o
escrúpulo do tradutor, ao assumir o risco de ficar aquém, consiste apenas na
lúcida consciência dos seus condicionamentos, que vão desde o radical
caráter aproximativo da proposta até à escolha de um critério que ao longo
do texto assegure uma unidade e homogeneidade de soluções. Recordo-me que a
preservação das estruturas rítmicas foi a minha preocupação dominante. Na
impossibilidade de transferir o intransferível ou de produzir uma criação
homóloga, parecia-me que a possível «fidelidade» ao ritmo salvaguardava as
unidades superiores do estilo hessiano. Entretanto, logo reconheci que em
certas áreas de significação muitas ressonâncias seriam abafadas, muitas
conotações se perderiam irremediavelmente, designadamente no domínio das
alusões e referências culturais. E este fenómeno começou logo pelo título
dos livros. Por este vos exemplificarei o tipo de considerações e de opções
que condicionaram a versão publicada.
Porquê, perguntar-se-á com justificada estranheza,
traduzir Klein und Wagner
por Ele e o Outro? Porquê semelhante ousadia? Porque não deixar no
frontispício do livro os dois apelidos que teriam inclusivamente o aliciante
do exótico?
Sendo ambas as palavras patronímicos de uso corrente na
língua alemã, possui todavia a primeira, Klein, um sentido literal que o
leitor alemão capta de imediato e que é opaco para o leitor estrangeiro. Se
se mantivesse a palavra alemã Klein, o leitor português não apreenderia o
seu significado de «pequeno» (neste contexto, sinónimo de comum,
vulgar).
Por outro lado, Wagner não é um termo tão opaco para o leitor português.
Associa-o ao nome de certo músico alemão, autor da Tetralogia, mas
dificilmente o associará, como o leitor alemão, a outros Wagners da sua
literatura: o dramaturgo, o fâmulo de Fausto, ou, inclusivamente, à noção de
ousadia veiculada pelo seu radical. Dir-se-á, é certo, que esta sobrecarga
de ressonâncias não teria importância decisiva para a compreensão do título.
Mas talvez se não considerasse que o relevo assumido pela palavra Wagner,
sucedendo à do inexpressivo Klein, desequilibraria a ordem de prioridades do
título.
Eis porque, não sabendo como vencê-la se torneou a
dificuldade substituindo os dois nomes pela designação das funções que
desempenham na narrativa. E foi a partir desse «eu» de Klein que era «Ele»,
o homem comum sem grandeza, com a sua face consciente, diurna, social que
surgiu o «Outro» a sua face noturna, subconsciente, marginal – Wagner.
Em Narciso e Goldmundo houve igualmente que optar
entre males menores. Porquê Goldmundo e não Crisóstomo, ou até Boca-de-Ouro?
Aí prevaleceu a eufonia sobre o equivalente português etimologicamente
rigoroso e a analogia desse aportuguesamento com os nomes de Edmundo,
Raimundo e todos quantos com essa terminação são familiares aos nossos
ouvidos.
Não há dúvida que as vicissitudes de uma tradução de que
estes exemplos anedóticos dão uma pálida ideia, bem nos permitem compreender
o desabafo de Hesse quando confessa que após a leitura de um romance
espanhol ou russo em versão alemã, um original da sua língua lhe sabia como
«eine Mundvoll frischer Luft».
Demos então a palavra ao que terá permanecido do texto de
Hesse no trecho que me proponho apresentar-vos, os últimos parágrafos da
minha versão do capítulo final de
Ele e o Outro:
A sua vida
desenrolava-se como uma região de florestas, vales e aldeias contemplada do
cimo de uma alta montanha. Tudo tinha sido bom, simples e bom, e tudo se
tornara, pela sua angústia e pela sua resistência, em torrente e confusão,
em medonho remoinho e convulsão de miséria e desgraça. Não havia mulher sem
a qual se não pudesse viver, e também não havia nenhuma com quem não se
pudesse viver.
Não havia coisa alguma, no mundo, que não fosse tão bela, tão
desejável, tão capaz de dar felicidade como o seu contrário. Era
bem-aventurado viver, era bem-aventurado morrer, desde que se estivesse só
no universo. Repouso vindo do exterior não havia. Nem repouso no cemitério,
nem repouso em Deus, nem sortilégio algum jamais interrompia a eterna cadeia
do nascimento, a infinita sucessão do respirar de Deus. Mas havia repouso no
próprio íntimo. Chamava-se: deixa-te cair! Não te defendas! Morre com gosto!
Vive com gosto!
Todas
as personagens da sua vida estavam junto dele, todos os rostos que amara,
todos os cambiantes do seu sofrimento. Sua mulher estava pura e inocente
como ele próprio, Teresina sorria como uma criança. O assassino Wagner, cuja
sombra se abatera tão pesadamente sobre a vida de Klein, sorria-lhe
gravemente, e o sorriso de Wagner dizia-lhe que também o seu ato fora
caminho para a redenção, também um respirar, também um símbolo, e que também
um crime, sangue e horror, não são coisas que existam de verdade, somente
valorações da nossa alma torturada. Com o crime de Wagner tinha ele, Klein,
passado anos da sua vida: a reprovar e a aprovar, a condenar e a admirar, a
abominar e a imitar, tinha forjado séries infindas de tormentos, de
angústia, de miséria. Assistira centenas de vezes, cheio de pavor, à própria
morte, vira-se morrer no cadafalso, sentira o gume da navalha no pescoço e a
bala na testa – e agora que estava realmente morrendo, a temida morte era
tão simples, tão fácil.
A figura de Wagner afundou-se ao longe. Ele
não era Wagner, já não era Wagner, não havia nenhum Wagner, tudo fora
ilusão. Sim, Wagner podia morrer, ele Klein, viveria.
Correu-lhe água para dentro da boca e ele
bebeu. De todos os lados, por todos os poros, entrava água, tudo se diluía.
Estava sendo sugado, estava sendo sorvido. A seu lado, junto de si, tão
juntas como as gotas na água, boiavam pessoas: Teresina, o velho
cançonetista, a que fora sua mulher, e o pai, e a mãe, e as irmãs, e
milhares, milhares e milhares de pessoas; também quadros e casas, a Vénus de
Ticiano e o Mosteiro de Estrasburgo, se misturavam numa torrente gigantesca,
impelida pela necessidade, rápida, cada vez mais rápida, vertiginosa, e de
encontro a esta monstruosa torrente de figuras vinha outra torrente
gigantesca e vertiginosa, uma torrente de rostos, pernas, ventres, animais,
flores, pensamentos, crimes, suicídios, livros escritos, lágrimas choradas,
densa, densa, cheia, cheia, olhos de criança e madeixas negras e cabeças de
peixe, uma mulher com uma faca comprida e fixa enterrada no ventre em
sangue, um jovem semelhante a ele com o rosto cheio de sagrada paixão, ele
próprio aos vinte anos, o já esquecido Klein de outrora. Como era bom poder
agora reconhecer isto: que não havia tempo. O que havia entre juventude e
velhice, entre Babilónia e Berlim, entre bem e mal, entre dar e tomar, o que
enchia o mundo de distinções, valorações, sofrimento, luta e guerra, era o
espírito humano, o jovem, impetuoso e cruel espírito humano, na fase
adolescente, delirante, e ainda longe da sapiência, longe de Deus. Inventava
oposições, inventava nomes. Chamava belas a umas coisas, feias a outras, a
estas boas, àquelas más. Um pedaço de vida era chamado amor, outro crime.
Assim procedia o espírito adolescente, tolo, cómico Uma das suas invenções
era o tempo. Uma bela invenção, um instrumento requintado de funda tortura
para tornar o mundo mais complicado e difícil. De tudo aquilo que o homem
desejava estava sempre e apenas separado pelo tempo, só por esse tempo, essa
louca invenção. Era esse um dos esteios, uma das muletas, que urgia
abandonar para conseguir a libertação.
A torrente das formas continuou o seu curso: a
que era aspirada por Deus e a outra, em sentido contrário, expirada por
Deus. Klein viu seres que se opunham à torrente, que se erguiam em terríveis
convulsões e criavam horríveis sofrimentos: heróis, criminosos, loucos,
pensadores, amorosos, religiosos. Outros viu, semelhantes a si, derivando
rápidos e ligeiros na íntima volúpia da entrega, do acordo, bem-aventurados
com ele. O cântico dos bem-aventurados e o infinito brado de angústia dos
desventurados, formava sobre as duas torrentes do mundo uma esfera ou cúpula
de sons, uma abóbada de música cujo centro era Deus, claro, invisível de
claridade, uma essência resplendente, uma quintessência de luz, envolta no
renascer da música pelos coros do mundo em eterna ressaca.
Heróis e pensadores, profetas e apóstolos,
saíam da torrente do mundo: «Vede, este é Deus, o Senhor, e o seu caminho
leva à paz», proclamava um e muitos o seguiam. Outro anunciava que o caminho
de Deus levava à luta e à guerra. Um chamava-lhe luz, outro chamava-lhe
noite; um chamava-lhe pai, outro chamava-lhe mãe. Um louvava-o como repouso,
outro como movimento, como fogo, como refrigério, como juiz, como
consolador, como criador, como destruidor, como redentor e como vingador.
Deus, porém, não dava a si próprio nenhum nome. Queria ser denominado,
queria ser amado, queria ser louvado, amaldiçoado, odiado, adorado, pois a
música dos coros do mundo era o seu templo e a sua vida
– mas era-lhe
indiferente o nome com que o louvavam, o amor ou o ódio que lhe votavam, que
o procurassem no repouso, no sono, na dança, no delírio: todos podiam
procurar, todos podiam encontrar.
Klein ouviu então a sua própria voz. Cantava.
Com voz nova e sonora, cantava alto o retumbante elogio e louvor a Deus.
Cantava e vogava arrastado pela corrente, no meio de milhões de seres, como
um profeta e um apóstolo. Soava alto o seu cântico, a cúpula de som subia, e
Deus, ao centro, resplandecia. As torrentes prosseguiam em prodigioso
bramir.
*
1978, 2008.

[voltar
para a página inicial]
Neste site encontram-se resenhados todos os trabalhos de ensaística e algumas
das traduções de Manuela de Sousa Marques, reunindo toda a obra publicada e a inédita.
|