Morte, Amor e Poesia: o Romantismo em Novalis


Das Poetische ist das echt absolut Reelle. Je poetischer je wahrer. Dies ist der Kern meiner Philosophie.

NovalisDesvenda-nos Novalis nestas palavras: "o poético é o autêntico real absoluto e quanto mais poético tanto mais verdadeiro" o segredo da sua estranha, jovem e aventurosa conceção do mundo. «É esse o cerne da minha filosofia». Nessas palavras reside o núcleo mais profundamente medular e fecundo para a interpretação da sua personalidade. E a atitude mais funda na compreensão de um poeta deve preocupar-se com a apreensão de um ou mais núcleos que impliquem todas as manifestações do seu pensamento e da sua obra. Não importa explicar: a explicação é eferente e centrífuga. Importa sim a implicação no Grunderlebnis a que tudo na obra se refere, ou seja, valor de que tudo é reflexo e símbolo, até os aparentemente "insignificantes" pormenores. Implicar é, no sentido em que usamos o termo, fazer reverter a esse núcleo. Por isso não tem sentido o desideratum de explicar um poeta, quando o que nos interessa é compreendê-lo. Pois esse alguém que se propõe compreender os poetas, detentor do tão difamado e vexado nome de crítico, é, ou deveria ser, na sua forma mais pura, capaz de 'vedorismo'. Esta doutrina que nos nossos dias poderia ser um bem comum, foi há século e meio uma das convicções mais arraigadas dos jovens românticos alemães. Diversa, porém, e por vezes triste, tem sido a história das conquistas românticas nos diferentes domínios da cultura. Algumas perderam-se, outras esperam ainda rejuvenescer.

A preciosa teoria romântica da crítica organicista foi dentre as aquisições desse período histórico uma das que mais longo tempo sofreram de incompreensão. Guardada como fogo sagrado por um ou outro grande poeta da "compreensão poética", ainda não chegou o dia da sua total e plena afirmação. No círculo dos românticos de Iena teve um doutrinário: Friedrich Schlegel. Foi ele quem a proclamou teoricamente e tentou realizá-la na famosa Charakteristik do Wilhelm Meister, romance de Goethe que os românticos celebrizaram e não se cansaram de admirar e estudar, enaltecendo-o mesmo quando dele discordavam. Para Novalis, porém, Kritik der Poesie ist Unding crítica da poesia é um disparate. Poesia não era suscetível de crítica no sentido até então vigente de crítica explicativa e censurante. Para Novalis era uma profanação e uma enormidade temerária aferir a poesia por padrões e submetê-la à jurisdição de cânones, ou "defini-la" em circunscrições lógicas e tradicionalistas. É por via negativa que em teoria se tenta aproximar da poesia. Poesia não é sequer definível Poesie ist indefinissabel. Não é possível fechá-la num conceito exaustivo. Abeira-se da sagrada palavra Poesia em tentativas de rodeio consciente e antecipadamente votadas a insucesso. A própria dialética tem dificuldade em encontrá-la. Sim, Novalis denomina-a: "offenbarten Gemüt, produktive Individualität"  – "revelação do mais íntimo, personalidade produtiva". Mas, se quisermos compreender o sentido profundo e supremo, religioso e poético que ele dá a Poesia, temos de recorrer ao seu pensamento filosófico que é, no fundo, uma grande tentativa de interpretação da Poesia. A filosofia é uma teoria da Poesia, pois esta é toda a verdade. A sua filosofia é poética, e poética é a sua vida, a sua moral, a sua religião, a sua política: Poesia é a essência mais profunda de tudo e do todo.

Das poetische ist das echt absolut Reelle. São sem dúvida estas palavras as decisivas, a chave única que nos abre o segredo da sua Weltanschauung, a síntese de tudo quanto disse, viveu e escreveu. Arde nele o ideal convicto de poetização do mundo. Die Welt muss romantisiert werden – e o paradigma do homem deverá ser o poeta. Aqui pretendemos indicar os aspetos que toma nos vários domínios essa revolucionária Weltanschauung, que é romântica por ter como fundamento e motivação o próprio ato poético. Porém, como se manifesta essa redução a um plano único – o poético – e como, através dessa manifestação, se reconhece o que para Novalis é o ato poético por excelência? Eis o que nos resta deslindar. Já sabemos onde procurar o esclarecimento dos mais relevantes aspetos do seu poeticismo: na conceção filosófica do homem na relação com o universo e com Deus.

Como todos os românticos de Iena, Novalis conheceu, antes do neoplatonismo de Hemsterhuys e do misticismo de Böhme, o idealismo de Fichte. Em Fichte encontrou uma das suas ideias basilares: para o autor da Wissenschaftslehre, a intelektuale Anschauung – intuição intelectual – descobre no homem um "eu" absoluto, transcendental, que se Retrato de Novalismanifesta em antítese ao não-eu. O eu especificamente íntimo e humano é o princípio espiritual consciente, e o não-eu exterior, apreendido empiricamente, é a natureza que os sentidos captam para o homem. Porém, eu e natureza são idênticos, como o reconhece o "eu" que na intelektuale Anschauung se eleva em esforço de consciencialização contemplativa no anseio de dar ao homem "o eu do seu eu", como Novalis disse em tão bela fórmula. A mesma alma anima a natureza e o homem. Este momento unitivo era já um momento místico: um momento de imediata realização dessa unidade. E também o panteísta vê em tudo, na natureza e nos homens, a presença una da divindade. Novalis, se tem uma vivência quase mística, está contudo em perspetiva especial que não é nem rigorosamente panteísta nem mesmo idêntica à que Schelling fundamenta na filosofia da identidade. Aqui a identidade é factual, é perfeita; o espírito, o Geist, está deveras omnipresente. Para Novalis a identidade – será: é potencial e latente. Como Nicolai Hartmann, em Die Philosophie des deutschen Idealismus, com penetrante comentário observa, a sua conceção é, pelo aspeto ativista, mais próxima de Fichte do que de Schelling. O homem terá de realizar a identificação por um ato, e o ato é o valor supremo para Novalis. A vasta obra da sua curta vida testemunha a infatigável atividade deste jovem, de cuja impressionante efervescência interior o amigo Fr. Schlegel encontrava manifestação sintomática no próprio ritmo do falar. Diz em uma carta: «falava três vezes mais e três vezes mais depressa do que nós».

A interpenetração do espírito e da natureza é o presente de um ato. Mas qual a característica e o índice desse ato? Como consegue o homem realizar a união da alma com o mundo, atingir o Indifferenzpunkt do polo objetivo e subjetivo, como diziam metaforicamente os românticos nos seus primeiros entusiasmos pela linguagem da nova física (Galvani, Ritter, etc.); como superar a antítese do eu e da natureza, fundir a dicotomia interior? O homem vulgar, o filisteu, desconhece-a e também ignora o íntimo pertencer-se de homem e natureza, e a união primitiva e talvez futura da família universal da pedra, da planta, do animal e do homem. Esse desconhece o universo e para ele o mundo bifurca-se em natureza, mundo exterior que pelos sentidos é levado ao homem, e mundo interior, para ele especificamente humanoo racional e lógico do Verstand e da Vernunft. Esse homem burguês é um estranho e um intruso no mundo: entre animais, plantas, pedras e ele não há senão uma relação utilitarista. Utiliza-os como instrumentos para servir os seus fins. Ou então, quando intelectual, a devoção mediata à natureza não é gratuita e pura: preocupa-se com arrumá-la segundo leis; ou seja, subalterniza-a ainda, pretendendo reduzi-la ao formato do seu intelecto. No fundo, está de relações cortadas com ela. Não a trata por tu. Não a dialoga. E, de entre todos os homens que a têm tentado compreender e amar, um só há, privilegiado, que é o seu íntimo: o poeta. "Nur die Dichter haben es gefühlt was die Natur den Menschen sein kann..." Isto é, "só os poetas ainda sentiram o que a natureza pode ser para os homens". Ao poeta tudo se mostra no que realmente é; só ele está na posse da verdade e do universal concreto que ela exprime. E é por isso que o poeta é a mais pura revelação de humanidade. É o ideal do homem futuro legado através das gerações pelo homem original, primigênio. O poeta é, pois, no sentido mais fundo da palavra, o arqui-homem. Novalis não se cansa de proclamar a sua suprema dignidade. Considera-o o médico transcendental, porque só ele pode purificar e iluminar o homem, restituindo-o à antiga pureza e inocência. Chama-lhe ainda vidente e profeta. Identifica-o com o sacerdote. "Dichter und Priester waren im Anfang eins" pois nele fala a voz de Deus com o verbo de amor que criou a natureza e o universo. E é também de todos os homens o mais religioso e o mais filósofo. Enfim, é um deus recriador do universo. O poeta cria de novo o mundo para os homens e essa criação é obra de conhecimento. Como diz Cysarz, em frase significativa e profunda sobre os românticos: a sua ficção não é Konkurrenz eines Erschaffenen, sondern Transparenz eines Erhaltenen, ou seja, não se trata de concorrência criadora, mas de transparecimento do existente.

No entanto, segundo Novalis, todo o artista é já parcialmente um poeta: o pintor e o músico são quase-génios. Só o poeta, porém, é e deverá ser cada vez em mais vastos círculos o génio total. Mas, perguntar-se-á: qual é o distintivo específico dessa genialidade? São ainda as formulações filosóficas de Novalis que nos podem dar as mais explícitas respostas. A primeira é a seguinte: o suicídio. Não nos deixemos, porém, embaraçar, pela estranheza e originalidade de expressão muitas vezes paradoxal, que os românticos afeiçoam. Novalis não se refere aqui à morte no sentido corrente de abandono da vida natural; não é uma apologia wertheriana nem o conselho aos poetas de porem termo à vida para alcançar a perfeição. Suicídio, na sua ousada terminologia, significa simplesmente ascese. Não houve, porém, um capricho verbal no uso deste termo designativo da situação suprema que é a morte. A sua escolha audaciosa reflete a vivência, ou melhor, uma das vivências fundamentais que determinou decisivamente a orientação do seu pensamento e da sua existência.

Desde que a noiva lhe morreu em 1797, tendo ele 25 anos, a morte tornou-se, após esse profundo abalo emotivo, uma ideia obsidiante e fecunda. Primeiramente como aspiração de abandono da vida, vai-se pouco a pouco alterando até afirmar-se simultaneamente com a vida; mais ainda: enriquece-se de tal modo que passa a ser condição da própria vida, símbolo da purificação e redenção pelo espírito. Novalis neste processo atinge o significado da mitologia cristã, católica, valorizando-a na sua poesia. É necessário, todavia, tornar bem claro que este ascetismo, esta alusão à morte da carne para manifestação pura do espírito não só não tem, como é de prever, relação alguma com o dogma católico da separação post-mortem da alma e do corpo, como também não implica qualquer forma de dissociação de espírito e matéria seguida de aniquilamento desta. Não. Novalis, como nenhum outro romântico, nunca pensou em separar. Todo o esforço destes homens é unitivo e amoroso. Novalis pensa em fundir mais intimamente a alma e o corpo, pensa em interpenetrá-los mais, em repassar o corpo de espírito ativo. O que ele entende por morte, é a morte da dissociação, é o aniquilar da aparente condição «de corpo como oposto a espírito». Na verdade é uma revalorização da "empiria".

E tudo isto é processo a realizar na existência no mundo pelo homem aspirante ao ideal supremo da Bildung. E este será o primeiro passo nessa via formativa; ou, mais rigorosamente, o segundo, visto que o primeiro é o reconhecimento da necessidade de dar esse passo. O primeiro é, pois, de autodesvendamento e meramente reflexivo; o segundo é ativo e decisivo. Primeiro e segundo chamam-lhes os nossos tristes preconceitos didáticos, mas para Novalis ambos são um e único processo, simultâneos, interdependentes e representativos dos dois caminhos que se oferecem ao homem, e que são afinal as duas extremidades da mesma via: Weg nach lnnen und Weg nach Aussen. Atentando bem, notamos que ambos são direções polares ou polos de um e mesmo eixo. Essa uma e mesma estrada deverá ser percorrida em ambos os sentidos. Não é indiferente sair de si para perfazer as jornadas da experiência ou encerrar-se no seu íntimo, desconhecendo-a e à natureza. O primeiro trajeto se for feito sem o segundo é penoso, lento e tortuoso. Se as jornadas interiores viessem em auxílio do viandante, desapareceriam essas asperezas e rodeios e o longo caminho seria feito de um salto. Assim no-lo revelam as palavras de Heinrich, herói do seu romance. Nenhum vale por si só. Valem na mutualidade da existência. Esta, uma das ideias matrizes de Heinrich von Ofterdingen, é bem significativa para a conceção do mundo e da vida dos românticos. Nunca um romântico se encontra perante uma opção unilateral e dilemática. Anseia por superar antíteses, conciliar opostos, enlaçar contrastes para atingir o universal em processo dialético que não sobreleva um aspeto em detrimento de outro, porque considera e respeita cada um dos termos com vantagem para ambos. Para Novalis, intimizar-se é encontrar-se a si próprio nos objetos e na natureza. Todo aquele que no templo sagrado da Natureza se abeira da deusa para lhe levantar o véu, vê-se com espanto a si próprio. Er sah Wunder des Wunders sich Selbst. Intimização é descoberta de si e do universo em si próprio, porque o homem é o ressoante microcosmos do macrocosmos. E intimizar-se é desvendar-se integralmente: é iluminação interior pelo espírito, é intensificação do sentir, multiplicação e fecundação do latente. Novalis fala-nos de gestações interiores. É, no fundo, um, ideal de lucidez. Também nos fala muito de "acordada vigília" – Wachsamkeit. E confessa a Caroline Schlegel, na carta onde comunica as impressões da leitura de Lucinde, que secretamente desejaria estar sempre acordado. Estar acordado é estar permeado pelo espírito e comandar todos os órgãos potencializando o seu sentir. Só assim o homem sente a omnipresença do espírito no universo, e nesse abraço que o confunde com a natureza encontra a alma. Die Seele ist da wo Gemüt und Welt sich berühren.

Vimos já que só o poeta, génio total, consegue na vibração dos seus sentidos multiplicados e ativos a lucidez do espírito que dilui todas as aparentes distinções na consciência profunda da unidade. Indicamos também que já no pintor e no músico, génios parciais, se realiza essa diferenciação genial do homem vulgar que é o primeiro estágio do despertar do espírito pelos sentidos: no pintor a visão, no músico a audição possuem tal grau de luminosa lucidez que atuam sem solicitações exteriores e fazem confluir em uma sensação única a perceção recebida do exterior e o ato de espírito que a anima e cria. O músico ouve no fluir das águas uma melodia, e é musical para ele o rumorejar do arvoredo. Não ouve o correr dos regatos, ouve sim a canção do espírito que neles canta e que se irmana com a canção que dentro de si mora, porque o espírito é sempre um e o mesmo, gemendo e jubilando nas ramagens e nos homens. No músico, pois, há já um sentido cuja intensidade espiritual confraterniza com os sons da natureza. Ao contrário do comum dos homens, ouve de dentro para fora e não de fora para dentro, como também no pintor o olhar é interior. Mas nem um nem outro atingiram a perfeição total do poeta: neste todos os sentidos conhecidos e desconhecidos (há muitos, segundo Novalis, que o homem ainda não fez desabrochar em si) estão vibráteis, lúcidos, potencializados em contínua recriação.

O próprio poeta, porém, esse segundo deus e segundo criador, não se ergueu ainda, todavia, ao apogeu da sua vocação humana. Ainda não é mago. Sim, o poeta é o senhor da fantasia, já é mais completo, sensível e ativo do que os outros artistas e o bom burguês. A fantasia dá-lhe o pressentimento de eternidade, da ilusão das categorias racionais de espaço e de tempo, da perceção sensorial e até da própria morte; já lhe permite adivinhar o reino absoluto do Amor, onde tudo é caos em gestação de nova ordem, de uma ordem diferente daquela que o mundo apresenta ao homem reduzido a intelecto e a sentidos. Sim, o poeta é já de certo modo um mago, mas ainda não subiu todos os degraus; ainda, citando as palavras de Novalis, brinca com a fantasia como uma criança brinca com a varinha de condão do pai, grande feiticeiro. Ainda não alcançou o domínio e força de alma necessários para não só na obra poética representar objetivamente o advento do novo reino do ρως universal, como também na própria existência realizar essa transmutação total de si e da sua relação com a natureza. Logo que alcance esse almejado e exequível ideal, poderá morrer para a existência terrena e poder-se-á metamorfosear em metempsicoses sucessivas. Será então o verdadeiro Magier, e terá escalado o último degrau que separa o homem dos deuses. É este, de resto, o alvo que se propõe fazer atingir ao protagonista do seu célebre e inacabado romance. O caminho para a purificação e redenção pelo espírito, o caminho que após guerras, aventuras, encontros e longas viagens o leva sempre em perseguição da simbólica flor azul, à morte e à transmutação em pedra, em árvore sonora e em carneiro (Widder) de ouro. É um itinerário de amor e pelo amor. Poesia é realização do amor. Amor é a via láctea de regresso à unidade radical do espírito. É um abrir-se do mundo futuro e passado. É o acesso ao reino da harmonia, quando o tempo ainda não era. E é simultaneamente a revelação da coexistência desse reino com o reino do tempo e das formas diferenciadas na consciência do homem. Para melhor compreendermos o sentido que Amor tem para Novalis, devemos recordar que na sua existência soube o que era o amor de dádiva, quase não mútuo, amor em que percorreu ele todo o caminho, amor que não nasceu da comunhão, mas amor que foi sua obra. E tanto assim que esse amor perdurou ativo após a morte do ser amado e ainda mais cintilante e forte, porque foi poesia "a solo", alimentado pelo seu próprio fogo. Uma qualidade de amor bem próxima do amor sófico – (e por coincidência, que ele destinalmente interpretou, tinha a sua noiva o nome de Sofia) – bem próximo também do eros universal: amor que contém pergunta e resposta, origem e fim, sujeito e objeto.

Assim se compreende que o salto da vivência amorosa profunda e decisiva fosse fácil para a decisiva e funda compreensão do amor que reúne no seio universal o homem e a natureza. Já o comparamos à via do regresso ao Todo. Nessa via só a poesia, a fábula e a fantasia transitam. Poesia é pois irmã do amor. Neste parentesco apresenta-a Novalis no conto fantástico e mitológico narrado no seu romance pelo velho poeta Klingsohr. Poesia aparece-nos aí encarnada na deliciosa figura da pequenina 'Fabel'. Esta pelas suas artes salva homens e deuses, a terra, o céu e o próprio Amor, seu irmão. Poesia redentora. E quando o homem for o homem que Novalis pensa que poderá vir a ser, será 'Fabel' a doce e amável déspota, e reunirá sob o seu cetro a ciência, a moral, a religião e a política. Insuflará a todos a sua alma ardente: a ciência humilhar-se-á e demitir-se-á da regência, ciente da sua importância mas também dos seus limites; na moral não haverá códigos nem imperativos heteronómicos. O ato moral não será ditado por cânones que contrariem o impulso decisivo interior e individual. Será então moral sempre a imediata decisão. Só ela equivale a uma canção. Diz Novalis: "eine überraschende Selbstheit ist zwischen einem wahrhaften Liede und einer edlen Handlung". Todo o ato do poeta, do homem que se criou em constantes gestações interiores, é, ipso facto, moral. Moral e religioso. E assim as três palavras mágicas que encerram o segredo da existência ideal do homem são para Novalis: Morte, Amor e Poesia.

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Edição original na Revista da Faculdade de Letras de Lisboa, 1947, revisto pela Autora em 2008.


Outros estudos em português sobre Novalis:

Natália FADEL (2008) Natureza e Linguagem em Os Discípulos em Saïs, de Novalis.
 


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