Carta de Delfim Santos a Hermann Hesse [*]Tradução do alemão [original em rascunho] por Manuela de Sousa Marques
24 NOV. 48 Mestre, Ouço ainda o eco das suas palavras e sinto ainda a força atraente da sua simpatia mágica. Tomou-me tudo tão fácil, Mestre, que parecia estar a falar com um velho amigo, sem inibições nem tremores, em clara compreensão e total confiança. Nenhuma distância, uma proximidade imediata, foi o que eu senti. Julgava que o respeito me faria calar e que não encontraria palavras. E o Mestre ajudou-me tanto que na sua presença não me senti oprimido nem humilhado. Foi admirável, foi único, uma experiência irrepetível; foi o cumprir-se de um belo sonho. E ainda me parece um sonho quando pergunto a mim próprio como é que tive coragem de bater à sua porta. Mas creio agora compreendê-lo melhor. Os seus livros dizem-me ainda mais do que antes. Reli há pouco Betrachtungen e Krieg und Frieden, Dank an Goethe, Eine Bibliothek der Weltliteratur e outras obras suas. Tudo se tomou mais claro para mim. Vejo o Mestre à minha frente, ouço a sua voz, reparo no seu sorriso e sinto que me olha com afeto. E agora a Manuela de Sousa Marques e eu vamos rever a tradução e enviá-la ao editor. Ela compreendeu bem e em profundidade as suas obras e esperamos que a tradução seja aqui recebida por muitos admiradores. Porém o que importa é que pela sua obra desperte o humano no homem, o sério no lúdico, e que a vida seja melhor vivida. Os meus respeitosos cumprimentos para sua Esposa e os melhores votos do seu muito dedicado e grato, Delfim Santos [*] – publicada em Obras Completas de Delfim Santos 4, Correspondência, Lisboa: 1998, carta n.º 229. * De Delfim Santos sobre Hermann Hesse leia-se:
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