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Oportunidades e limites de uma educação multi/interculturalista
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[Original apresentado no 'V Simposium Internacional de Língua Portuguesa – Educação Intercultural, Práticas e Reflexões', organizado pela Escola
Portuguesa de Moçambique, Maputo, Moçambique, set./out. de 2008]
Este texto é dedicado a todos os alunos da Escola
Portuguesa de Moçambique [esq. imagem de uma aula na EPM].
A multi/interculturalidade é um dos temas
que mais atrai a atenção atual, suscitando uma abundante bibliografia focada no
estudo da socio- e da etnodiversidade no meio escolar e na consequente
(in)adaptação da escola aos desafios identitários que vão surgindo nos países
receptores de imigração.
Cabe refletir aqui sobre a complexidade do
conceito de 'cultura' como lugar múltiplo de interseção dos indivíduos com os
grupos e sobre a distinção entre 'multi/interculturalidade' e 'multi/interculturalismo'.
São definições que se revelam prioritárias quando estes conceitos são usados
quase sempre de forma indistinta e inadequada no debate contemporâneo
sobre a nova pluralidade social.
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A cultura como lugar de interseção dos indivíduos com os grupos
A chave para as questões identitárias encontra-se na
relação dinâmica entre o(s) indivíduo(s) e o(s) grupo(s), uns com os outros,
dentro de si e entre si.
O termo cultura
designa o resultado mental e material da apropriação e incorporação da leitura
do mundo que o homem processa de forma seletiva e sucessiva. Desse processo
dinâmico se obtêm os traços peculiares da sua personalidade e igualmente os
traços comuns aos outros indivíduos e que coexistem com os primeiros – e são
estes últimos que adscrevem os seres humanos a grupos de origem e de pertença
linguísticos, etários, sociais, profissionais, locais, nacionais, confessionais,
entre os possíveis de uma longa lista. Mesmo existindo uma dinâmica própria que
reforça e legitima os traços da sua cultura do grupo, tais grupos são sempre
compostos por indivíduos, cada um destes sendo por sua vez dotado da sua cultura
individual.
A relação dos indivíduos com os grupos
articula-se então em três planos:
1) entre os indivíduos – dimensão
intercultural;
2) dentro dos grupos –
dimensão intracultural;
3) entre os grupos – dimensão multicultural.
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indivíduo
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grupo
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indivíduo
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INTERCULTURALIDADE
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intraculturalidade
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grupo
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intraculturalidade
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MULTICULTURALIDADE
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Distinção entre multi/interculturalidade e
multi/interculturalismo
A multiculturalidade é uma situação
permanente e própria do ser humano que, ao unir-se a outros indivíduos para
atingir um objetivo comum, vai constituindo um sem-fim de grupos mais ou menos
particularizados, e nos quais ele se inclui ou é neles incluído de forma
involuntária por razões de nascimento, condição, etc. Estes grupos entram em
algum tipo de relação de atração e repulsa com os outros grupos.
Quantitativamente existe um grupo maioritário face aos restantes que serão
minoritários, sem que o grupo maioritário tenha forçosamente que coincidir com o
'grupo dominante'.
A interculturalidade também é um
dado incontornável para o homem, pois designa a dependência da nossa
personalidade face à influência que recebemos dos outros; a cultura não é
auto-construída, ela provém da combinação entre o que vamos recebendo, o que já
possuíamos antes e o que rejeitamos incluir na nossa bagagem intelectual. A
fórmula da identidade é a alteridade excluída: procedemos a escolhas de entre os
elementos de cultura com os quais nos deparamos, e é ao percebermos algo ou
alguém como 'diferente' que definimos o que seria o nosso 'igual', a nossa
'identidade'.
As duas dimensões do nosso ser-em-relação-com-os-outros são igualmente
importantes: a interculturalidade lembra a singularidade radical que há em cada
um de nós, enquanto a multiculturalidade insiste em que todo o indivíduo se
inclui ou é incluído em grupos – instintiva ou naturalmente ele vai-se achando
agrupado, segundo afinidades pressentidas, em conjuntos reais ou supostos,
co-naturais devido à gregariedade da espécie humana: é assim que o sujeito pode
definir-se ou ser definido por meio de tais grupos (um 'japonês', um 'papua',
etc.). A cultura é o que nos distingue dos outros membros da espécie e, enquanto
humanos, é também o que nos aproxima deles, já que, tal como nós, eles são todos
sujeitos culturais.
Assim como se
distingue entre
indivíduo
(situação de unicidade do sujeito) e individualismo (ideologia ou atitude
que explora essa unicidade) há também que distinguir entre o que se nomeia por
inter- e multiculturalidade e as ideologias que daqui derivaram o seu
nome e ampliaram o seu alcance. Os 'ismos' servem para separar o que são
situações inevitáveis do ser humano face aos corolários políticos e às agendas
sociais, e fala-se assim em correntes de pensamento ou de práticas
inter/multiculturalistas. Estas pretendem fornecer respostas próprias às
dificuldades de convivência geradas pelo fenômeno da globalização, bem como aos
exacerbamentos identitários que esta provocou e que causaram múltiplas e por
vezes desencontradas reações nas diferentes sociedades:
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por um lado deu-se a banalização da alteridade, a
consciência da unidade humana, a atenuação da sensação de diferença
perante os mais inesperados contrastes;
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mas a diminuição das distâncias físicas entre os grupos
aumentou também em certos casos a consciência das distâncias culturais entre
eles, pela exposição direta e quotidiana, levando a uma
alterofobia de proximidade e conduzindo a choques entre indivíduos
e comunidades que passaram a competir entre si pela hegemonia ou a
lutar pela sua sobrevivência cultural;
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produziram-se
novas fraturas sociais e culturais, por vezes no seio de grupos antes
homogéneos e que se subdividiram;
-
reforçaram-se as identidades já existentes
e fortaleceu-se uma resistência cultural ativa com uma radicalização das
diferenças, sobretudo por parte de minorias procurando defender-se de
uma homogeneização redutora e assimilatória que as subsumiria no grupo
maioritário;
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renasceram
antigas identidades que se presumia estarem extintas, micro-regionalismos
e diversos particularismos agora conscientes de vetustos legados
históricos;
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surgiram
novas identidades a partir de hibridismos e de miscigenações culturais
entre indivíduos e grupos que anteriormente não se encontravam em
presença;
-
despertaram-se nos mais variados segmentos (de matriz
étnica, estatutária, sexual, regional, linguística, ou ainda por parte
de pacientes de doenças, utentes de serviços públicos, consumidores, etc.) as reivindicações de direitos e
igualmente de visibilidade em espaços públicos de encontro e de
intervenção (centros culturais e locais de convívio, templos, etnoescolas, etc.).
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Procedendo a um contraste entre os modelos interculturalista e
multiculturalista é possível avaliar em que medida estas duas correntes poderão
divergir e convergir entre si na resposta às múltiplas tensões da globalização.
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Caraterização do modelo interculturalista
Pressupostos
– Todo o indivíduo da espécie humana não é um mero ator cultural, mas um
verdadeiro autor, um criador de cultura e seu transmutador único e
irrepetível, situado num momento também ele único – e completando continuamente
o capital natural da espécie, aperfeiçoando-o ou pervertendo-o. Cada ser humano
possui uma cultura composta por elementos consonantes e dissonantes com todos e
com cada um dos outros membros da sua espécie, transformando de modo original e
criador tudo aquilo que recebe da interação com todos eles e também com os
diferentes grupos familiar, escolar, do bairro, nacional, étnico, confessional,
etc. Constantemente em processo, o ser humano não é algo acabado ou fixo, pelo
contrário ele vai sendo uma miríade de intermináveis possibilidades: «a
identidade [não é, mas] será: é potencial e latente»[1].
A sucessão de experiências interiores e exteriores vai metamorfoseando o
sujeito, que não se cumpre nem em qualquer das suas fases nem na soma de todas
elas.
Implicações – Como a
cada instante da sua existência o homem elabora uma nova síntese ao receber,
assimilar, produzir, transformar e transmitir aos demais os elementos e traços
de cultura, ele transforma-se sempre num composto cultural diferente, singular,
original, cambiante e em constante mutação, de irrestritas possibilidades e
nunca confinável a alguma definição de identidade que exija permanência ou
imutabilidade; ele é diferente de todos os outros e igualmente do que ele
próprio já foi, ou irá ser. Não é membro de um só grupo identitário, antes
apresenta uma mescla compósita proveniente de cruzamentos entre variadíssimos
grupos[2]. Por vezes
essa pertença a múltiplos grupos pode ser percebida como incoerente e
contraditória pelo próprio e/ou pelos outros, gerando ansiedades no sujeito.
Também as diferenças intragrupais, aquelas que existem entre indivíduos dentro
de um mesmo grupo, são provavelmente maiores do que as diferenças entre os
próprios grupos: encontraremos mais contrastes entre as classes sociais de uma
mesma nação do que entre a mesma classe em duas nações distintas. Assim, para os
interculturalistas é um erro olhar para os grupos e perder de vista os
indivíduos: como escreve Carbonell i Paris, «No se debe valorar nunca los
productos culturales por encima de sus productores»[3], expressando a crença de que
afinal as semelhanças reais entre os homens são mais fortes do que todas as suas
aparentes e possíveis diferenças[4].
Decorrências – Onde estiverem duas pessoas estarão
duas culturas, separadas por alguns traços e unidas por outros tantos.
Não há culturas estáticas, pois o processo cultural é estruturalmente
dinâmico, quer ao nível individual quer ao grupal – a identidade dos
grupos é mais cambiante que a dos indivíduos que os compõem, já que
depende das constantes mudanças dos seus componentes. A personalidade
forma-se assim em constante interação consigo próprio e com os outros. A
valorização da dimensão individual da cultura leva-nos a reconhecer a
sua incessante mutação, já que cada sujeito, em cada momento, vai
gerando novas sínteses: «Neither human thoughts, intentions and
feelings are perfect, exact, fixed. They are in constant mutation, in
constant movement and they can change in the exact second an utterance
is being made»[5].
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Réplica
– A desvalorização dos grupos em proveito dos indivíduos e a pouca
atenção às tensões entre aqueles parece ser uma arriscada negação do
protagonismo do coletivo no cenário da atualidade. As soluções
interculturalistas passam comumente pela recusa em alimentar as
diferenças: por exemplo, em Itália os multiculturalistas defendiam a
colocação de versículos corânicos nas salas de aula das escolas
públicas, ao lado dos tradicionais crucifixos; perante esta proposta, os
interculturalistas defenderam a ausência de todo e qualquer 'símbolo de
divisão', com a supressão dos existentes e a não-adição de novos. Também
em França a 'questão do véu' nas escolas públicas e a subsequente
proibição do uso de quaisquer símbolos religiosos 'ostensivos' pelos
alunos foi outro exemplo da aplicação deste princípio da negação do
direito à etnoidentidade, neste caso a confessional. Como foram
igualmente proibidos crucifixos 'acima de um certo tamanho'(?!) a
proibição destinada às minorias foi hipocritamente ampliada à maioria,
porém as afirmações de identidade não têm o mesmo valor num e no outro
caso: a minoria tem muito mais necessidade de elementos identitários
exteriores para se afirmar como grupo e poder resistir culturalmente.
Como há sempre um grupo dominante face aos outros grupos, recusar o
pleno reconhecimento destes últimos equivale a ser agente do seu
enfraquecimento e diluição. Talvez não seja por acaso que este modelo
que vê as identidades como bastante fluidas e negociáveis e os grupos
como irrelevantes tenha prosperado em países com um longo historial de
desrespeito pelas minorias, como a França, Espanha, Portugal e a
generalidade dos países europeus. Ele pode mesmo ser visto como uma
atualização das teses assimilacionistas perante a 'pressão migratória'
que supostamente ameaçaria as 'identidades nacionais' e os 'valores
comuns' do grupo maioritário – embora as tentativas de definição de
quais sejam esses valores e essas identidades não consigam, por via de
regra, gerar grandes consensos.
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| Riscos
– O principal risco do interculturalismo é o individualismo. A sua
recusa em aceitar como entes definitivos os grandes grupos culturais (por
exemplo as etnoculturas) porque estes estão sempre em devir e mútua
contaminação e enriquecimento acabará por fomentar o individualismo
destruidor das solidariedades intragrupais, bem como das dinâmicas
agregadoras da família, da religião, dos costumes e das tradições que
têm primordial importância entre as minorias radicadas num meio cultural
contrastante ou hostil como é o caso daquele que cerca os imigrantes[6]. É
perigoso olhar o sujeito cultural como um ser instável e um reelaborador
volúvel de tudo aquilo com que é confrontado, rodeado e permeado, sem
que tenha de se comprometer com atitudes ou valores para lá dos seus
próprios juízos subjetivos e voláteis.
Corolários educativos – Na escola o modelo
interculturalista considera o aluno um ser singular, abstraído e
emancipado de qualquer grupo de origem ou de pertença, e representante
de nada nem de ninguém a não ser dele próprio. Investe-se no novo
fazedor de cultura e não na cultura já feita, na mudança ao invés da
tradição. Segundo este modelo, um muçulmano nascido em França não será
um muçulmano tout court
mas um complexo identitário composto de muitas variáveis: muçulmano sim,
porém
nascido em França, no seio da diáspora argelina, morador na
periferia
Y ou no gueto Z da Grande Paris e com conflitos de
proximidade e de rivalidade com outras minorias que com ele concorrem
pela visibilidade, porém que acaba por se debater com os mesmos desafios
comuns a todos os seus concidadãos. O aluno não é pois um embaixador de
um certo grupo, antes se valoriza a sua personalidade exclusiva, ele não
pertence a um coletivo mas é simultaneamente membro de muitos grupos
heterogéneos, alguns de caráter mais inclusivo e que contrabalançam com
outros de pendor mais exótico. Sem dar grande relevância às diferenças e
diversidades culturais, e centrando-se antes nas pessoas e na sua
situação, o interculturalismo olha este aluno como um jovem mais, de uma
dada geração, com traços comuns aos outros jovens da sua classe etária
(inclusão na sociedade francesa) e que para além de falar o árabe e o
berbere é também um francófono (inclusão na cultura francesa),
partilhando com todos os falantes do francês as mundividências
específicas dessa língua. Não é importante que ele seja membro de uma ou
de outra minoria cultural, pois são-lhe reconhecidos os interesses em
comum com os franceses de qualquer origem, maioritária ou minoritária.
Caraterização do modelo multiculturalista
Pressupostos
– Quando se fala de cultura raramente se tem em mente a sua dimensão individual
na qual o modelo interculturalista se baseia. Em geral a diversidade cultural é
usada não para distinguir as culturas pessoais, mas para separar gerações,
classes sociais, confissões e etnias, etc., ou seja, os grandes grupos de
pertença. Seria entre estes que existiriam as mais significativas cisões,
teoricamente mais relevantes que os possíveis choques individuais. O
multiculturalismo professa a possibilidade de todos os grupos, quaisquer que
sejam as disparidades entre eles, poderem coexistir pacificamente lado a lado
num mesmo espaço, mediante a renúncia de todos e em especial do grupo
maioritário ao predomínio cultural sobre os demais. Para este modelo o pretenso
conflito de mundividências, a suposta incompatibilidade entre algumas
etnoculturas ou religiões, mascara apenas certos conflitos de interesses, pois
na verdade os choques surgem de estratégias de dominação opostas a outras de
resistência legítima. Apresentados como novidades, os regionalismos, os
nacionalismos, os secessionismos e os fundamentalismos são respostas de sempre,
surgidas não de lutas de ideias ou entre culturas, mas de lutas pelo poder.
Implicações – O aspecto mais característico do
multiculturalismo é colocar todas as culturas coletivas em igualdade,
demonstrando igual deferência por valores e tradições qualquer que seja
a sua proveniência. Os grupos podem eles próprios encontrar-se em
condições muito assimétricas de poder e de influência, porém as suas
culturas equivalem-se, não são hierarquizáveis, todas são igualmente
veneráveis: nenhuma cultura é mais válida do que outra, nenhuma delas
está mais próxima do que se considera ser 'o real', porque é a cultura
que constrói a imagem da realidade
e não é a realidade que determina por si as culturas. Diferentes
desenvolvimentos tecnológicos e econômico-sociais não são indício de
culturas bem ou mal sucedidas, antes se devem a fatores de natureza
histórica conjunturais e acidentais: os aparentes 'insucessos' dependem
do critério utilizado para os aferir e são altamente questionáveis –
será mais importante a adaptação de um povo ao seu meio natural ou o
chamado 'desenvolvimento' de outro, traduzido em acumulações de
destruição, de luxo e de desperdício? Ainda que certos traços culturais
se tenham imposto de um povo a outro, como o uso do tabaco pelos índios
americanos aos povos europeus, ou o consumo do café pelos turcos aos
mesmos europeus, ou a quase mundialização da
pizza italiana ou do cinema americano, tal não significa qualquer
'avanço' ou 'triunfo' cultural. As culturas, nem oponíveis nem
comparáveis, residem na
essência imaterial e espiritual de que os grupos são depositários
– e não nos aspetos e produtos materiais que delas resultam como suas
manifestações momentâneas a cavalo de astucioso marketing. A
cultura é o
espírito que preside à confecção do artefato, e não o objeto
produzido por ela. Ao acarinhar a diversidade de soluções que os grupos
humanos encontram para os problemas universais, o multiculturalismo
insiste em que é na variedade cultural que está a riqueza:
de acordo com o provérbio italiano, «Il
mondo è bello perché è vario».
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Decorrências
– O multiculturalismo fortalece nos indivíduos o sentido de pertença ao
grupo, a uma riquíssima linhagem cultural, seja ela a dos povos
africanos, polinésios, esquimós ou europeus. Endossa uma visão
comunitarista da sociedade, surgida da reivindicação de direitos das
minorias e como reação às práticas assimilatórias e de genocídio
cultural. Como modelo pôde vencer onde as minorias e as diversidades
étnicas e linguísticas foram desde há mais tempo reconhecidas como uma
força e não como uma ameaça, em países geralmente jovens e oficialmente
bilingues ou de poliglossia constitucionalmente reconhecida como nos
casos do Canadá ou da Nova Zelândia. Pela dignificação das culturas
nativas ou adventícias, o multiculturalismo reforça a auto-estima dos
que antes tinham vivido na falsa vergonha da sua pseudo-inferioridade
cultural, e na consequente auto-negação que induzia as populações a
olharem como 'retrógradas' as suas próprias práticas culturais,
supostamente condenadas à inevitável extinção pelo 'progresso' vindo do
exterior. |
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Réplica
– O multiculturalismo implica três grandes riscos: o primeiro é o de
aprisionar os indivíduos a um conceito de cultura isolado do homem
concreto, exterior a ele, obrigando-o a conformar-se com uma entidade
espectral, desencarnada e essencializada, assumida como invariável, e
afinal construída a partir de fora, já que é somente o contraste com o
'diferente' que nos faz tomar consciência daquilo que nos é 'próprio'.
Essas construções derivam de uma extrapolação abusiva das diferenças.
Nasce assim o ESTEREÓTIPO ou 'clichê': a imagem que um ambiente cultural
faz de outro é como o reflexo de alguém num espelho distorcido até se
chegar à caricatura grotesca, e uma vez obtida essa imagem redutora da
cultura alheia exige-se que o estrangeiro oriundo desse ambiente se
conforme forçosamente não às infinitas possibilidades do que ele queira
e possa ser, mas ao que os outros pensam que ele 'tem de ser'. Seria o
culto multiculturalista pela diversidade que acabaria por prender as
pessoas a estereótipos com os quais elas ou já não se sentem, ou mesmo
nunca se sentiram confortáveis e com os quais estão provavelmente em
ruptura devido à sua experiência de um outro meio cultural. É impossível
manter as culturas em divisões estanques como se não se influenciassem
mutuamente: esperar que um romeno que vive em França ou em Portugal se
comporte como um 'romeno' é não levar em conta que ele possa querer
comportar-se como um 'francês' ou como um 'português', perturbando assim
o conceito prévio das 'necessárias diferenças'. Um outro risco do
multiculturalismo é o do FOLKLORISMO, ou o culto dos elementos
superficiais e mais espalhafatosos das culturas em prejuízo de um
entendimento das suas dimensões profundas e menos teatrais. Por fim, o
terceiro risco do multiculturalismo é o do RELATIVISMO, ou ausência de
juízo crítico sobre as culturas ao acolher sob o manto protetor do
direito à diversidade qualquer crença ou prática por mais aberrante que
inicialmente pareça. Esse relativismo foi sintetizado numa constatação
angustiada de Kleist: «Como pode o homem organizar digna e plenamente
a sua existência, (...) se o Bem varia ao sabor das latitudes, se não há
uma moral absoluta? A mesma voz que exorta o cristão a perdoar ao
inimigo diz ao Zelandês para o assar e comer com devoção»[7].
Ora renunciar a hierarquizar as culturas não deve ser confundido com a
inibição do juízo crítico, devendo essa crítica incidir em primeiríssimo
lugar sobre a nossa própria cultura antes de eventualmente esquadrinhar
os aspetos disfuncionais das alheias.
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| Tréplica
– O multiculturalista lembra que efetivamente as culturas NÃO SÃO
PASSÍVEIS DE CRÍTICA pois esta parte sempre de um ponto de vista
cultural específico, ou seja, seria um juízo EM FUNÇÃO DO OLHAR do
próprio crítico, o que equivaleria a afirmar ou subentender a
superioridade da sua mundividência. Como afirmou Edward Said no seu estudo sobre as imagens
distorcidas dos árabes e dos muçulmanos que o Ocidente propagou e
propaga, a origem destas imagens está exatamente no fato desse Ocidente
se ocupar mais em JULGAR do que em ENTENDER as outras culturas: «As a
cultural apparatus Orientalism is all aggression, activity, judgment»[8].
Na verdade o único ‘erro’ das outras culturas é apenas o de serem
diferentes da nossa, o seu ‘crime’ é o da alteridade, como bem enunciou
Montaigne: «...il n'y a rien de barbare et de sauvage en cette
nation, à ce qu'on m'en a rapporté: sinon que chacun appelle barbarie,
ce qui n'est pas de son usage. Comme de vray nous n'avons autre mire de
la verité, et de la raison, que l'exemple et idée des opinions et
usances du païs où nous sommes. Là est tousjours la parfaicte religion,
la parfaicte police, parfaict et accomply usage de toutes choses».[9] Comparando
os canibais aos europeus, e lembrando os crimes dos portugueses no
Brasil, o filósofo francês conclui que a primeira e pior barbárie é
afinal a nossa, e não a do 'outro'. Igualmente o desejo subjacente ao
pensamento ocidental de que todas as outras culturas sejam elas 'também'
igualitárias, tolerantes e progressistas é um abuso de critérios
eurocêntricos na apreciação da alteridade e configura outra tentativa de
impor os apregoados (bem mais do que praticados) valores ocidentais a
todas as partes do mundo. Quanto à essencialização das culturas, o
multiculturalista responderá que admite a valência dos processos de
crioulização e de hibridismo, porém ao se darem essas miscigenações é
formada uma nova cultura de grupo com a sua especificidade, e assim
sucessivamente. E em resposta à crítica ao folklorismo multicultural,
tenha-se em conta que uma cultura, sendo imaterial e espiritual, se
materializa em produções artesanais e artísticas, cânticos, danças,
etc., um patrimônio visível ou sensível que, se entendido no seu
contexto, pode ajudar a revelar a dimensão espiritual que presidiu à sua
produção. Como prevenção do estereótipo, o multiculturalista defende ser
fundamental que se dê a voz ao próprio, para que seja ele a expor e a
apresentar os elementos da sua cultura e ajudar a vencer os apriorismos
que os outros alimentem sobre ela. Devemos começar por reconhecer que
todos temos os nossos preconceitos sobre as outras culturas e que
ninguém está livre do juízo de valor pré-formado antes do efetivo
conhecimento de algo ou de alguém. Assim, todos julgamos apressadamente
as pessoas não pelos seus próprios méritos e deméritos mas pelos que
atribuímos ao seu grupo de pertença (e esta pertença pode ser real ou
suposta), devendo pois iniciar-se por nós próprios o combate às
avaliações distorcidas das outras culturas. |
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Corolários Educativos – A escola multiculturalista
é aquela que, perante o seu capital multicultural do qual está
orgulhosamente consciente, explora ativamente as diferenças entre os
grupos de pertença dos seus alunos em proveito do processo
ensino/aprendizagem. Mais do que no folklorismo bacoco das comidinhas,
das roupinhas e das festinhas, é importante afirmar a igual valorização
de todas as culturas na elaboração dos conteúdos, dos manuais, do
currículo, olhando como positivos os contrastes entre as heranças dos
grupos de proveniência dos alunos, sejam eles raciais, étnicos ou
religiosos, etc. Insiste-se no conhecimento e na aceitação do Outro tal
como ele é, e qualquer que ele seja, mais do que na interação ou
apropriação de traços entre os diferentes sujeitos culturais que
marcaria o interculturalismo. Se estivermos perante alunos indianos ou
muçulmanos destacaremos os legados científicos, arquitetónicos e
artísticos das grandes civilizações do Hindustão ou dos impérios
islâmicos: a invenção dos algarismos e do zero na matemática, a obra de
Ibn Battuta na geografia[10],
a de Ibn Khaldun na sociologia e na história, sem deixar de realçar
aquilo em que os modernos computadores ou as longínquas navegações dos
portugueses foram devedores dessa herança. Nesta escola o aluno é
realmente o embaixador do seu grupo, e domina, além da língua comum, uma
outra língua específica, mais ou menos distante, que lhe proporciona uma
linguagem simbólica e mítica diferente, e que constitui preciosa chave
de interpretação do mundo obtida no seu grupo e que ele é agora chamado
a apresentar aos condiscípulos (mais do que a partilhar como 'troca
intercultural') a fim de os emancipar de uma ignorância provinciana e
etnocêntrica. |
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| Podemos concluir que
todas as escolas são interculturais, uma vez que em todas elas temos
portadores de cultura transformando continuamente o seu patrimônio
pessoal por influência da interação com os outros; e todas são também
multiculturais pois em todas encontramos uma pluralidade de grupos,
reais ou conjeturais, mais nítida ou mais difusamente definidos,
identificados e tratados como tal pelos indivíduos e pelos restantes
grupos em presença. Tal não corresponde contudo a afirmar que todas as
escolas são interculturalistas ou multiculturalistas, pois essa
qualidade não é um dado involuntário e terá de derivar de um esforço
consciente de uso destas dimensões em proveito da relação paidêutica.
Constatar que uma dada escola tem alunos de grupos étnicos distintos,
por exemplo de 26 nacionalidades, certifica-a como um espaço
potencialmente multicultural apenas e tão-só SE O CORPO DOCENTE também
refletir essa diversidade; mas mais importante ainda, não a qualifica
como multiculturalista se esse capital de variedade e de multiplicidade
não for investido ao nível DOS CONTEÚDOS e dos MÉTODOS pedagógicos.
Os dois modelos são contrários, mas não opostos:
Observando o seguinte quadrado dos modelos culturais
encontramos o interculturalismo e o multiculturalismo em posições contrárias,
porém não opostas:
interculturalismo
VS.
multiculturalismo
integração
┌
┐
separação
Respeito pelos indivíduos
\ /
pelos grupos
______________________________________________________________________________
Desrespeito pelos
indivíduos / \
pelos grupos
assimilacionismo
└
vs. ┘
segregacionismo
integração
separação
Na tabela seguinte resumem-se as implicações para o
tratamento da diversidade cultural pelos diversos modelos:
|
MODELO
|
Segregacionista
|
Assimilacionista
|
Interculturalista
|
Multiculturalista
|
|
CRENÇA
|
Supremacia de um grupo e
marginalização dos outros
|
Domínio de um grupo e submissão
dos outros
|
Respeito pelas diferenças individuais
|
Respeito pela diversidade dos grupos
|
|
ATITUDE
|
Recusa da convivência com
as outras culturas
|
Predomínio de uma cultura
sobre as outras
|
Superação das
etno-culturas centrando-se no indivíduo
|
Igual dignidade e
harmonia entre todas as culturas
|
|
CONSEQUÊNCIAS
|
Exclusão e desprezo
|
Adaptação ou extinção
|
Integração individual
|
Inclusão de todos os
grupos
|
O oposto do interculturalismo é o
segregacionismo
O modelo segregacionista foi amplamente teorizado e
aplicado por sistemas políticos que separaram as comunidades e etnias em
presença com o pretexto de elas se encontrarem em 'estádios de desenvolvimento'
diferentes, pelo que a sua convivência representaria um risco para todos. Estes
eram os supostos do regime americano da primeira metade do século XX e mais
tarde do apartheid
sul-africano. Contrariamente aos assimilacionistas e aos interculturalistas, os
segregacionistas reconheciam ferreamente os grupos étnicos, as suas
peculiaridades e diferenças que pretendiam zelosamente manter, mas
diferentemente dos multiculturalistas eles recusavam às culturas igual dignidade
e valor. As teses segregacionistas foram criticadas não tanto pelos seus
pressupostos de manutenção da diversidade, mas por mascararem com a firme
proteção da integridade das etnoculturas a apropriação económica dos recursos de um
país por parte de um dos grupos em desfavor de todos os outros.
O oposto do multiculturalismo é o
assimilacionismo
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O multiculturalismo nasceu como reação às políticas assimilacionistas
praticadas por Estados ao serviço de hegemonias culturais, como os casos
da Grã-Bretanha ou da Austrália – as chamadas ‘stolen generations’
(gerações roubadas) dos aborígenes australianos, sujeitos ao massacre
cultural e à negação do direito a viverem segundo os seus costumes e
tradições. Ao contrário do segregacionismo e do multiculturalismo, o
assimilacionismo pretendia acabar com as separações entre os grupos, mas
diferentemente do interculturalismo ele impunha uma cultura considerada
'superior' a todos os indivíduos de qualquer origem. A agenda pedagógica
multiculturalista nasceu da reversão da antiga escola assimilacionista
que fabricava a uniformidade e a conformidade. Houve também casos em que
se usaram simultaneamente dois modelos: em parte nos EUA e mais ainda no
Brasil praticou-se preferentemente uma política de assimilação para os
imigrantes e outra de segregação para os indígenas. |
Sobrevivências de práticas assimilacionistas
O assimilacionismo está longe de ser um modelo do
passado: recentemente uma lei de 1988, a Education Reform Act,
impôs em Inglaterra, Gales e Irlanda do Norte um currículo nacional para o ensino básico em prejuízo da anterior variedade de práticas
educativas e curriculares das escolas - que foi considerada pelos
legisladores como 'arbitrária' e 'caótica'[11]. Em 1951
Delfim Santos (1907-1966), o
primeiro catedrático de Pedagogia em Portugal, defendia em pleno
ambiente político centralista e nacionalista, um modelo nitidamente
multiculturalista para o desenho curricular, consubstanciado na
adaptação e diferenciação do ensino primário e médio dedicado às
populações citadinas face àquele destinado às rurais, para que a
escolarização não fomentasse o desprezo pela vida campestre; e um outro
igualmente distinto para os habitantes da metrópole e para os das
colônias «tendo em conta a heterogeneidade das populações do império
português», e mais um outro também diverso para as escolas portuguesas
nas comunidades da diáspora em território estrangeiro[12].
Ou seja, pelo menos quatro grandes diversificações de conteúdo atendendo
aos alunos e não a princípios de uniformização. Mas o Portugal atual
está longe de seguir estas orientações: as populações do antigo império
português e igualmente as de outras proveniências batem à porta da
ex-metrópole em busca de condições de vida menos penosas mas não lhes é
reconhecido, enquanto comunidades imigrantes, o seu direito à
diferenciação educativa em matéria de língua, de história, de religião,
etc. Entre o que se poderia ilustrar com quase todas as disciplinas
escolares temos o caso flagrante das aulas de Língua Portuguesa que para
largos contingentes migratórios é língua não-materna ou estrangeira;
porém é exigido a este aluno a obtenção de resultados equivalentes aos
daqueles para quem ela é língua materna. Atentemos ainda na
circunstância algo aberrante de uma língua regional como o mirandês ser
protegida pela lei portuguesa[13]
enquanto os muitíssimo mais falados crioulos cabo-verdiano ou guineense
da região da Grande Lisboa se encontram privados de qualquer
reconhecimento e dignificação
– e são até
intencionalmente ignorados, desvalorizados, e se possível votados à
destruição sistemática. Este é apenas um exemplo de práticas
assimilacionistas mais ou menos descaradas, que em tantos países
continuam a privar os aprendentes do direito legítimo à escolarização na
sua própria língua materna[14]:
… instruction is never given in the minorities' mother
tongue, a fierce demand when it comes to European foreign policy dealing with
non-European countries, but never applied to Europe itself. Likewise, Crioulo is
banned from the school curriculum instead of being used in schools with majority
of Cape-Verdean background pupils, and it is ignored and despised by the
mainstream society, the media, and the authorities alike. Not a surprise if it
is prohibited also inside the re-education centers, as a further step towards
the linguistic repression and cultural suppression of this minority, leading to
the humiliation of its ethnic heritage and the disregarding of their fundamental
rights, namely linguistic and cultural
[15].
No caso espanhol, o acima exposto aplica-se em especial à língua árabe:
Urge dar a la lengua árabe, por ejemplo, un tratamiento normalizado en los
currículos escolares. Es preciso introducir el árabe en los centros educativos
no sólo, como se hace en ocasiones – de manera un tanto vergonzante –, en
horario extraescolar, sino en el currículo ordinario, como una primera o segunda
lengua extranjera, con créditos variables específicos para la Educación
Secundaria, y brindar facilidades a los alumnos que dominan esta lengua para que
puedan obtener la titulación adecuada en las escuelas oficiales de idiomas.
¿Cómo podemos seguir desperdiciando este capital cultural y esta magnífica
ocasión de mejorar la significatividad de nuestros currículos para estos
alumnos? Y aunque sólo fuera desde el punto de vista legal: ¿cómo puede
mantenerse la dilación actual en la aplicación de convenios internacionales que
nos obligan a facilitar los aprendizajes de las lenguas maternas de los alumnos
inmigrados?
[16]
Conjugar os dois modelos é possível?
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Na sua pureza teórica não é possível adotar simultaneamente os
modelos interculturalista e multiculturalista. Mas uma conciliação
destas duas abordagens respeitaria os indivíduos e seria em nome deles
que consideraria os grupos, pois é destes que o indivíduo recebe o
necessário reforço para as suas crenças e práticas. Consistiria
simultaneamente num esforço de fortalecimento comunitário das
identidades dos aprendentes, para que estas não se diluíssem nas águas
equívocas do desenraizamento, mas velaria simultaneamente para que os
alunos oriundos das minorias não fossem acantonados num gueto cultural e
para tanto valorizaria o muito que eles têm em comum com os outros
jovens da sua faixa etária, com as pessoas de qualquer comunidade que
habitam o mesmo bairro onde eles vivem, com os seus companheiros de
desportos, ou com os outros membros da sua geração com quem partilham os
mesmo gostos musicais, ou seja, pelo reconhecimento do lado não-exótico,
não-étnico e não-confessional dos aprendentes. |
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Seria como conjugar as duas afirmações: «o aluno Ibrahim é um
jovem muçulmano que vai regularmente à mesquita, faz as suas orações,
decorou muitas suras do Corão, jejua no Ramadão e felizmente traz-nos o
Islão para a sala de aula, explicando-o aos colegas» e igualmente «o
Ibrahim é o Ibrahim, gosta de rap, pratica parkour, desenha muito bem, é
bem-vindo por si próprio e quem sabe o que ele será amanhã?». As
duas dimensões dos indivíduos, a própria do seu trajeto pessoal e a
comum ao seu grupo de origem, não têm que se excluir mutuamente, elas
podem completar-se harmoniosamente.
Bibliografia para uma reflexão ampliada
-
AAVV. (2002) – El discurso intercultural, Biblioteca Nueva:
Madrid, Espanha ES.
-
AAVV. (2009) –
http://www.multiculturas.com, materiais para uma teoria e prática
multiculturalistas.
-
ABDALLAH-PRETCEILLE, M. (1999) – L’éducation
interculturelle, PUF: Paris, France, FR.
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CARBONELL I PARIS, F. (2002) –
Decálogo para una Educación Intercultural, Monitor educador
90, pp. 32-39.
-
CARLO, M. (1998) –
L’interculturel, CLE, s/l.
-
EUROPEAN COUNCIL (2000) –
Intercultural Learning - um 'training kit' para jovens, infelizmente
demasiado centrado na Europa.
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JULIANO, D. (1993) – Educación intercultural,
Escuela y minorías étnicas, Eudema: Madrid, Espanha, ES.
-
MUDANÓ, A. & MOLINA, L. (1999) –
Lengua y cultura de origen: niños marroquíes en la escuela española, Del
Oriente y del Mediterráneo: Madrid, España ES.
-
NANNI, A. & CURCI, S. (2005)
– Buone pratiche per fare intercultura, EMI: Bolonha, Itália IT.
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RUIZ DE INFANTE, B. & al. –
Educació intercultural, posem-la en pràctica!.
-
SIDEKUM, A. (org) (2003) – Alteridade e
Multiculturalismo, Unijuí: Ijuí, Brasil, BR;
Multiculturalismo: Desafio para a Educação
na América Latina.
-
TODD, E. (1994) – Le destin des immigrés,
assimilation et ségrégation dans les démocraties occidentales, PUF:
Paris, France, FR.
-
WARD, C. –
Course on
Intercultural Encounters, National University of Singapore,
Singapura, SG. - exemplo de uma matéria universitária com bibliografia.
-
WYMAN, S. (2000) – Como responder à
diversidade cultural dos alunos, ASA, Lisboa, PT.
Notas
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[2] - Alterando uma simples variável entre apenas quatro grupos identitários
básicos como sexo, idade, nação, confissão resultam compostos claramente
diferenciados, uma vez que um 'homem, jovem, moçambicano e católico' é um
resultado bem distinto de ' mulher, jovem, moçambicana e católica', ou de
'homem, idoso, moçambicano e católico', ou ainda de 'homem, jovem,
mexicano e católico', e de 'homem, jovem, moçambicano e muçulmano'.
[4]
- Idem, p. 1: «Por lo tanto, el objetivo
irrenunciable y definitorio de la educación intercultural no ha de ser el
respeto a la diversidad o el culto a la tolerancia, sino la convicción de que
somos más iguales que diferentes, con todas las consecuencias que de este
principio se derivan».
[6] - Entre as estratégias seguidas por alguns Estados
para a si próprios se identificarem com uma cultura por eles sumariamente
definida (a tão propagada tese do 'Estado-nação') contam-se algumas curiosas
exigências feitas em sede de processo judicial de naturalização: conhecer um
hino, falar uma língua, comprovar costumes e hábitos e até por vezes o
conhecimento da história do país hospedeiro. Além de os legisladores caírem no
auto-clichê com essa simplificação, são exigências que partem de um conceito
indigente do que é cultura e que muitos dos próprios cidadãos nascidos no grupo
maioritário não conseguiriam satisfazer.
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[7] - Kleist, carta 51 – Manuela de Sousa Marques,
Heinrich von
Kleist, Poeta Trágico, Revista da Faculdade de Letras de Lisboa 2ª
s., 17, Lisboa, 1951.
[8] - Orientalism, New York 1978, p. 204.
[9] - Montaigne, Des
Cannibales, Essais I, XXX, Paris 1595.
[10] - Nanni & Curci 2005
exemplificam o método comparativo com os usos didáticos de um paralelo entre as
obras de Ibn Battuta e de Marco Polo, pp. 68-71. O mesmo se poderia fazer em
Portugal com Battuta e Fernão Mendes Pinto.
[11] - A survey by Her Majesty's Inspectorate at the end of the
1980s showed how haphazard the teaching of history and geography could be,
in Bob
Moon, A Guide to the National Curriculum, Oxford University Press,
Oxford 1996. p. 10.
[15] - F. Delfim
Santos, The imprisoned
youth: from exclusion to seclusion. An overview of the Caxias Youth Re-education
Center, Portugal, Studi Emigrazione/Migration Studies
XLIII, 163, Roma 2006, pp. 587-600. Neste estudo de caso analisou-se a
contradição entre a condição numericamente maioritária dos jovens reclusos de
ascendência cabo-verdiana num reformatório da Grande Lisboa e a subrepresentação
desta etnia entre as figuras dotadas de autoridade, os guardas, ou com um papel
positivo, os formadores. Detectou-se que esta incongruência gerava uma
identidade de resistência entre os reeducandos visando compensar o
desenraizamento e a destruição da sua auto-estima. A intervenção do Centro de
Estudos Multiculturais (CEM) partiu da descoberta da cultura cabo-verdiana pelos
formadores, conferindo-lhe um acréscimo de prestígio e de valor social. De igual
modo uma nova percepção da importância das línguas maternas levou ao
levantamento da proibição, então vigente, do uso do crioulo nesse
estabelecimento reeducativo/prisional. Ver a documentação completa em
http://www.multiculturas.com/INTI.
[16] - Carbonell i Paris,
Decálogo
III, 2002, «No confundirás la interculturalidad
con el folklorismo», p. 2.
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Autoria: filipe santos* |
* - Doutor em História pela Universidade Autónoma de
Madrid (UAM), Madrid, Espanha; Pós-Doutorado em Letras pela Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, Brasil.
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