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Há pequenas coisas na nossa vida às quais não atribuímos significado na
altura, mas elas são determinantes nas atitudes que tomamos, nos percursos que
escolhemos e no posicionamento que tomamos perante a vida.
É curioso o olhar dos que estão do lado de lá sobre aquilo
que é dos que estão do lado de cá. Muitas vezes temos tendência para fazer a
comparação de nós para os outros e temos dificuldade em comparar dos outros em
relação a nós, temos dificuldade em descentrarmo-nos. Eu costumo dizer que a
grande aprendizagem que eu fiz, ao debruçar-me sobre a problemática do
Multiculturalismo, foi o questionamento de mim própria, ou seja, pôr em questão
alguns valores que eu tinha ou certezas que eu tinha... Nós temos tendência a
integrar aqueles que consideramos superiores a nós e temos mais dificuldade em
integrar aqueles que consideramos inferiores, porque nós somos, achamo-nos,
superiores.
Se o problema da língua foi aquele que mais dificultou e
mais constrangimentos trouxe aos professores, o que é facto é que houve outros
problemas igualmente importantes, mas que eles não verbalizaram.
Um constrangimento muito grande foi a relação professor/ aluno, o trabalhar
com crianças que tinham cheiros, cores, modos de ser, modos de estar, modos de
viver completamente diferentes.
Isto veio chocar muito, embora não fosse assumido. Muitas
vezes nós ouvimos nas escolas: "O que é que se espera? É falar à preto, estar à
preto." Desculpa-se ou atribui-se as culpas porque se é preto ou cigano e acaba
a pessoa por se desculpabilizar. Não há dúvida de que a escola portuguesa, como
outras escolas, a primeira preocupação e palavra de ordem que teve foi
integrar/inserir; o mesmo se passou nos EUA e em outros países da Europa. A
partir dos anos 60 as primeiras correntes que surgem não têm preocupação com
aquilo que é diferente. Se repararem, aquilo que acontece em Portugal é igual
aos outros países. Porquê? Porque a primeira preocupação é: se eles vêm para cá
eles têm de ser como nós. O problema é quando, quarenta anos depois, continuamos
a pensar da mesma maneira. Acho que poderíamos resolver muitas coisas se
trabalhássemos em conjunto, se soubéssemos dialogar. Sobretudo em projectos é
impensável a falta de diálogo; se ele não existir as coisas não funcionam, os
objectivos não são atingidos. Não tem nada a ver com a boa vontade das pessoas,
elas são óptimas, fazem o seu melhor; mas eu só peço que elas falem umas com as
outras em vez de ter cada um o seu projecto com o seu dinheiro e os seus
objectivos. Se calhar deveriam sentar-se a uma mesa e aprenderem a falar, a
rentabilizar os recursos materiais e humanos. Sozinho ninguém faz nada, por
muito boa vontade que tenha.

Falámos da sociedade, da escola, dos professores, dos alunos e também já
falámos dos pais. Então é o momento de escutarmos o depoimento da Dona Hortense,
uma mulher-mãe do bairro da Bela Vista, em Setúbal, de etnia cigana, que eu
entrevistei para a minha tese de mestrado, no princípio da década de 90.
Dizia-me ela quando eu lhe perguntei se achava útil para a
vida futura do filho este andar na escola: "Era, porque é o que lhe faz falta é
saber ler. O que é que eu sei? Tar a olhar para uma letra ou uma coisa qualquer?
Por mim m'arregulo eu. Está a ver? Eles... tá uma vida que eles pegam de um
carro, pegam no sapato tem que saber o número! Tem que ver a vida! Uma pessoa
que não sabe ler não sabe nada ... qu' eu por mim m'arregulo eu! Eu sou muito
esperta, eu penso muita coisa, eu penso da minha vida, eu penso dos meus filhos
mas nunca sei o que a senhora sabe e é isso que eu queria que os meus filhos
soubessem."
Eu digo sempre aos meus alunos da Faculdade, futuros profissionais da
Educação: o aluno é a razão primeira e última de se ser professor.
A escola tem de ser repensada, tem de ser uma escola que
encontre respostas para os desafios que se lhe colocam. A escola, hoje, não é
mais do que aquilo que a sociedade quer que ela seja. Mas a escola, se quer ser
inovadora, não pode ser só o que a sociedade quer. Tem de ser criadora e
criativa. Aqui é que está a grande diferença. Uma pessoa que tenha tido uma vida
difícil vai querer que o seu filho tenha uma vida melhor que a sua e se puder
ter na sua terra uma universidadezinha e o filho ser licenciado tem todo o
direito de ter esse sonho, essa ambição. Tem todo o direito de fazer do sonho
realidade, VIDA.
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