Porquê o CEM
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Muitos nos perguntam porque é que criámos o CEM no já longínquo ano de 2000.

O Centro de Estudos Multiculturais parte da experiência do Centro de Estudos Asiáticos (ver abaixo) que iniciara cursos de pós-graduação e especialização na sua área científica em 1998/1999. 

O crescimento do CEM não tardou em manifestar-se, no ano lectivo de 2001/2002,  pela duplicação do número de estudantes do Curso de Pós-Graduação em Multiculturalismo. Alguns vinham todos os sábados do Porto, de Faro, mesmo de Vila Real de Santo António para Lisboa. Antes estudaram nas Fac. de Letras de Lisboa e do Porto, nas Univ. do Algarve, Nova de Lisboa, no ISCSP, no ISCTE, no ISEG, no Instituto Superior de Serviço Social e até no exterior, oriundos da diáspora portuguesa que agora regressa (França e Venezuela), ou da lusofonia. Trabalhavam na administração autárquica, nos ensinos básico e secundário, na cooperação com África, na animação cultural, em disciplinas artísticas, ou visavam uma carreira académica, estando outros sem emprego no momento do curso.

 

 

O Centro de Estudos Multiculturais pertence aos que cursaram as nosssas formações e a todos os que frequentam o SITE MULTICULTURAS, um site pioneiro de temática multicultural. Pertence às populações migrantes e aos imigrados, às diásporas, que são quem dá sentido ao nosso trabalho. O futuro do CEM será aquilo que vocês queiram fazer connosco.

 

 

Confira: neste site estão publicadas leituras originais, como testemunhos de imigrantes, artigos de interesse permanente, e mensagens dirigidas ao CEM.

Neste momento estão online:

 

Testemunhos

Artigos

Mensagens

 

30 Abril 2003

DD. Diretoria do CEM:

Ontem, quando acusei o recebimento da mensagem de V. Sas., não tinha tido tempo suficiente para "navegar" mais fundo no site do CEM, porém como o fiz quero me manifestar a respeito. À todos os Diretores, Professores e Funcionários os meus sinceros parabéns pela excelência do trabalho que desenvolvem. Estou grato por tão exemplar companhia... Foram felizes na escolha do nome CEM. Estou convicto de que somente a cultura poderá fazer com que os que podem ver, passem a enxergar; os que podem ouvir, passem a escutar; os que podem falar, se manifestem e os que têm pureza de espírito se mobilizem, na construção (interminável) de um mundo mais justo economicamente, e mais igualitário socialmente. Com admiração, estima e respeito, agradeço pela publicação do meu artigo e me coloco a disposição para colaborar em tudo que possa ser útil.
Saudações brasileiras,

Faustino Vicente - Consultor, Professor e Advogado.
Rua Jol Fuller, 72 - Centro - CEP 13201.810.
Jundiaí - São Paulo - Brasil.

Referência ao artigo «Carnaval S. A.»

 


Evocando a experiência do Centro de Estudos Asiáticos - CEA

Antepassado directo do CEM, o CEA foi fundado em 1998 para ministrar cursos de pós-graduação e especialização na área dos estudos asiáticos.

 

Entre outras matérias, ensinava-se então no CEA a língua árabe bem como o sânscrito e o hindi, e desenvolvia-se um programa de estudos sobre a história e a cultura das nações asiáticas com uma perspectiva inovadora: pela primeira vez no panorama académico português renunciava-se expressamente ao olhar eurocêntrico ou lusocêntrico e procurava-se dar voz às perspectivas pós-coloniais pela revalorização dos elementos autóctones e nativos das culturas da Ásia. A tónica era posta nos períodos pré- e pós-coloniais, procurando-se estudar as realidades da Índia, da China, do Japão e da Indonésia a partir das suas próprias fontes, dos seus historiadores, dos seus antropólogos, dos seus cientistas sociais, libertando o olhar do discurso euro-americano tão totalitário nas Humanidades e Ciências Sociais como noutros campos.

Tendo todas estas regiões sofrido o impacto traumático do expansionismo português, para além do de outros impérios europeus, íamos a contra-ciclo dos indólogos, sinólogos, nipólogos e outros orientalistas "lusitanos" para quem todo o interesse no estudo desses longínquos povos e culturas "exóticas" residia no resgate das "relíquias" da famigerada e exaltada "presença portuguesa", nas suas sobrevivências demográficas, arquitectónicas, linguísticas, etc.

Gente que, anos passados sobre o fim do tal Império continuava (e continua...) a fazer uma provinciana e nacionalista história do "Portugal de Além-Mar", agora mal disfarçada por uma "democrática tolerância" e um "respeito condescendente" para com os súbditos de outros tempos, servindo-se sempre de abundantes fatias do orçamento criteriosamente destinado às Comemorações dos Descobrimentos. Comemorações estas que se filiam numa extensa tradição de cantores de gestas e heróicos feitos materializada no séc. XIX na apoteose romântica do camonismo e na instauração da comemorativite aguda com que desde então os sucessivos poderes portugueses se auto-glorificam. A estratégia do CEA baseou-se na contratação de professores não-portugueses de várias etnias, religiões e línguas maternas (alguns cursos eram dados em inglês), bem como de investigadores portugueses imunes ao vírus do branqueamento que se fazia (e se continua a fazer) das exacções, genocídios, escravaturas e outras marcas da tão famosa "presença".

Pouco a pouco, a nossa recusa em estudar o "Portugal das Sete Partidas" ia gerando uma imensa curiosidade no seu inverso, o estudo dos trabalhos e dos quotidianos das gentes provindas das várias partes do mundo para Portugal.

E de como os filhos do Império continuavam a oprimir os imigrados, quais escravos de agora, que a pobreza e "desordem" das suas terras delapidadas e depauperadas, ontem como hoje, pelos interesses dos países auto-proclamados "desenvolvidos" (?) atraía para uma miséria humilhante nas cidades europeias, para os trabalhos duros e indesejados quantas vezes por conta dos próprios Estados, para o desemprego crónico nos bairros-de-lata, para as arbitrariedades dos serviços de fronteiras, para a violência policial, para os absurdos de um delirante "sistema de ensino", para os infernos da marginalidade, das associações criminosas e das prisões, a tudo isto somando-se sempre o subtil (e às vezes menos subtil) desprezo e arrogância por parte dos "nacionais"...

A inscrição dos mitos desenvolvimentistas e progressistas, e dos vários totalitarismos deles derivados (cientifistas, legalistas, igualitários, laicistas e higienistas, entre outros) no próprio imaginário das populações imigradas, contribui para torná-las presas dóceis e submissas de um sistema que usa os seus braços mas dispensa displicentemente os seus cérebros.

A situação agudizou-se precisamente no segundo semestre de 2000 com o caso da "CREL - Quinta da Bela Vista" e de lá para cá não têm cessado de aparecer casos e mais casos a soar um alarme que ninguém quer ouvir, tanto sobre as condições desumanas e degradantes em que se alojam as populações imigradas quanto sobre os erros gravíssimos que se cometem nos seus realojamentos. No ano seguinte o 11 Set. viria a confirmar as piores tendências do chauvinismo "ocidental" e do "cruzadismo" sempre latentes.

Como sentíamos a necessidade urgente de dar a voz a quem nunca a tem, mais do que a de fabricarmos soluções de duvidosa aplicabilidade pelos poderes constituídos, foi-se gerando naquele pequeno grupo o imperativo de proceder ao diagnóstico de problemas e ao levantamento de situações de "boas" e "más" integrações, auscultando sempre os interessados e quem com eles de perto trabalha.

Nasceu assim, em Setembro de 2000, o Centro de Estudos Multiculturais, herdeiro do rico capital de experiência do CEA, e vocacionado para ministrar cursos na área das Pós-Graduações, para além de polarizar intervenções no domínio editorial e no campo social, pelo estudo directo das populações. O CEM rapidamente reuniu à sua volta estudiosos das realidades das minorias ciganas, africanas, indianas, do Leste, bem como das questões educativas, religiosas, sociais, geracionais, habitacionais, etc., em torno dos eixos identidade/alteridade, inclusão/exclusão, indivíduo/grupo, representações/estereótipos, conformidade/revolta, assimilação/rejeição, expectativas/frustrações. Estudiosos sim, mas sobretudo homens e mulheres cuja sensibilidade ao Outro fê-los partir do terreno para a reflexão, e desta para o registo das suas experiências e para o estudo das alheias. Todos decididamente comprometidos com a produção de perspectivas inovadoras e originais sobre a temática multicultural, quer abrindo caminhos não trilhados, quer repensando o que de melhor se produziu na área da teorização da Diferença. Todos acreditando na infinita riqueza que representam todas populações que escolheram, pelas mais diferentes razões, esta mesma fracção de terra para nela viverem e trabalharem, para aqui gerarem e educarem os seus filhos, para atingirem os seus ideais de vida. E que desejam não ser confrontadas e hostilizadas pelos que já cá estavam - aqueles que sem terem escolhido aqui viver, pretendem transformar a anterioridade da vinda dos seus antepassados em direitos e privilégios de que se possam excluir os recém-chegados. 

 


 



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