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Olá, Viriato Meu nome é Emerson Silva. Bernadette é a autora do artigo, originalmente em holandês. Eu fiz a tradução da qual vi alguns trechos na sua mensagem. Sim, a experiência que você narra, obviamente é de uma moça das Antilhas que conheceu seu amigo. Frank Martinus Arion é um dos maiores poetas das Antilhas Holandesas, foi pioneiro na promoção da literatura e poesia em papiamento. Há vários livros dele à venda online. E é óbvio que o papiamento é um dialeto lusófono, e não aquela velha definição de que seria uma mistura de línguas. E como é a língua oficial de Aruba e Antilhas Holandesas, eu tenho tentado promover uma maior aproximação cultural entre os dois lados, porque entendo que lusofonia deve integrar esses dois territórios também. Há um grupo em papiamento na internet, dê uma olhada. Eu venho contribuindo com alguns textos: http://groups.yahoo.com/group/Antiyano/ Obrigado, Escrevo-lhe com certo atraso, porque apesar de ter guardado o seu e-mail, dado o grande interesse que me despertou, foi-se passando o tempo entre os afazeres e acabei por ir protelando. Interessantíssima a sua experiência e gostaria de ficar em contacto consigo para trocas de experiências e ideias. Conto-lhe porquê o meu chamemos-lhe entusiasmo perante a sua informação. É que há uns anos atrás (sou cabo-verdiano) um amigo meu, marítimo de profissão, descrevia-nos num grupo de amigo a sua experiência numa das viagens pela América Central e do Sul. Vou resumir a história. Quando o seu navio aportou em Coraçao, desembarcou e andou a passear pelas ruas da capital até que foi parar a um parque onde viu uma moça sentada sozinha. Sentou-se ao lado dela e foi a moça que tomou a iniciativa da conversa. Então o espanto do meu amigo! A moça falou com ele em crioulo. Crioulo um tanto diferente, mas ele compreendeu e respondeu-lhe no seu próprio crioulo de Cabo Verde. A partir daí a comunicação entre os dois foi fluindo. Para a sua grande surpresa o meu amigo depressa descobriu que a sua interlocutora não era cabo-verdiana como tinha assumido (talvez imigrante) e a mesma vice-versa. Como é possível? Nós estamos aqui a conversar e a entender-nos muito bem. E a história, verídica, fica por aqui. Conto com o seu feedback. Neste momento também faço parte do staff do Centro de Estudos Multiculturais de Lisboa. Se lhe interessar conhecer-me melhor peço-lhe que consulte o site, que naturalmente conhece. Diga-me qualquer coisa. Pode ser? Um abraço amigo, Este é um artigo que traduzi do holandês para o português, Emerson Arqueólogo da línguaSua primeira viagem aos Países Baixos tinha escala nas ilhas do
Cabo Verde. Lá, teve uma experiência que o perseguiu por muito tempo em vida: os africanos falavam a mesma língua que ele. Recentemente
Frank Martinus Arion foi além no cultivo de sua língua materna numa
entrevista a respeito da poesia em papiamento. 'NA PRIMEIRA VEZ em que fui aos Países Baixos, em 1953, a viagem durava cerca de 36 horas e havia uma escala nas ilhas do Cabo Verde. Eu ainda me lembro que ouvi alguns africanos falando papiamento. Fiquei completamente extasiado: como pode ser? Não havia resposta aparente para tal fato. Então, analisei o que poderia fazer a respeito.'Levaria ainda algum tempo antes que o projeto de Frank Martinus Arion
pudesse frutificar. Em 17 de Dezembro de 1996, no dia de seu
sexagésimo aniversário, lançou na Universidade de
Amsterdã "O beijo de um escravo. Conexões Oeste-Africanas do
Papiamento". Seria um trabalho a respeito de sua língua materna, com
algumas interrupções ao longo de muitos anos. Em 1958, foi estudar
holandês em Leiden, depois de graduar-se.
Efraim Martinus Frank (é o seu nome de batismo, que brilha na
fita): 'Além disso conheci alguns pesquisadores e vi semelhanças entre o crioulo caboverdiano e o papiamento'.'Eu à época não poderia ir às ilhas do Cabo Verde por causa de Salazar, então, viajei à Costa do Marfim, Gana e à Nigéria. Fui com minha mulher, Trudi Guda. Ela realizou uma pesquisa antropológica sobre a literatura oral dos Sranan, Tongo e dos Saramaccaans. Eu desfrutei enormemente de sua colaboração. Até 1981 nós vivemos no Suriname; Eu trabalhava lá e repentinamente tive que lecionar literatura holandesa. Escrevi o artigo a respeito dos Saramaccaans e do papiamento e decidi então partir. Em 1981, dei uma palestra a respeito do Guene, dialeto de Curaçao, e da conexão da mulher africana com o papiamento em uma conferência a respeito da lingüistica caribenha. Entretanto levaria ainda algum tempo antes que eu pudesse ir adiante, porque fui trabalhar para o Instituto Lingwístiko Antiano. Escrevi ao Ministério da Educação das Antilhas que eu como nativo queria promover a difusão do papiamento, mas eles disseram: 'Este trabalho não nos interessa, e além disso nós temos homens suficientes para o Ministério.' Tornei-me chefe e presidente de uma comissão para a introdução da língua materna na escola. Até que em 1986 dediquei-me inteiramente ao trabalho de comissário, mas quando a política nos deixou sem apoio, coloquei meu cargo em disponibilidade. Eu havia me aprofundado dentro da teoria de origem da língua na qual a língua materna tem um papel importante no processo de assimilação lingüística. Organizar o Kollegio Erasmo, uma escola secundária humanista com o papiamento como língua da instrução, pareceu-me o único expediente'. O NOME papiamento vem do verbo papiar (em papiamento), ou seja, falar, é um sufixo morfológico independente do substantivo. Este verbo ocorre também no crioulo de Cabo Verde, Guiné-Bissau e no dos Saramaccaans. Pode ser inferido do português papear, falar, mas também do occitano ou do provençal. No século XVII vários protestantes franceses e judeus sefarditas emigraram às ilhas de Curaçao e Cabo Verde, freqüentemente através de outras regiões caribenhas. O papiamento apareceu em torno de 1640 em Curaçao como uma mistura de dialetos afro-portugueses, trazidos da África Ocidental. As três ilhas do barlavento caíram em mãos espanholas em 1499. A população indígena foi deportada para Hispaniola. Após diversos assaltos realizados pelos ingleses e pelos piratas franceses elas tornam-se islas inutiles (ilhas inúteis, um apelido dado pelos espanhóis porque não encontraram nenhum metal precioso) e são ocupadas pelos holandeses em 1634.Essas operações ocorriam desde o fim do século XVI na África Ocidental. Curaçao transforma-se em um porto de trânsito para o comércio de escravos. A importação começou em 1641, e a seguir os holandeses ocupam dois dos principais portos de fornecimento de escravos dos portugueses, Mina e Luanda, e fazem um tratado de amizade e cooperação com a rainha Nzinga. A rainha nativa angolana combate os portugueses com o auxílio holandês. Os holandeses evitam a confrontação, mas apoiam a rainha Nzinga em guerras tribais contra seus inimigos, e por outro lado auxiliam os portugueses. Nessa época os holandeses receberam o nome de makamba, «amigos» em kimbundu. Por volta de 1660 surgiram as primeiras lavouras, graças às quais a população cresceu rapidamente. De acordo com Martinus a primeira linguagem crioula urbana dos escravos vem de alguns traços do holandês do começo do século XVII, e de outro lado, da língua dos escravos da lavoura, o guene. O primeiro papiamento era uma mistura de um crioulo de Mina (derivado de crioulo do Cabo Verde adicionado ao twi) e dos crioulos angolares. O guene vem das colônias de Angola/Congo, de Guiné-Bissau e de São Tomé. Depois os falantes do Papiamentse krioyo (crioulo) sobrepujaram os demais. À época da chegada dos judeus de Cabo Verde apenas em 1674, coincidindo com a importação dos escravos, o guene e o papiamento adquiriram maior importância. Os judeus falavam um crioulo português um pouco diferente do crioulo urbano. A língua geral falada era o papiamento e o guene sobrevivia marginalmente. Ainda haviam poucos falantes neste aspecto. A respeito do surgimento do afro-português como língua de contato na África Ocidental existem várias teorias. A maioria é rejeitada por Martinus por motivos lingüísticos e demográficos. Em seu livro ele concentra seus esforços numa teoria de crioulo proto-afro-português. Inicialmente afirmou que todas as línguas crioulas atlânticas descendiam de um pidgin, originado pelo contato entre colonizadores portugueses e os nativos habitantes da África Ocidental. Isto se baseia nas fortes interações mutuamente estruturais. Este afro-português original já era uma língua crioula ou então ainda um pidgin que seria transportado ao Caribe? No lugar disso discutiu a 'hipótese da múltipla origem', porque os arqueólogos também devem reconstruir uma civilização sem reescrever as bases de seu arranjo. Para ele são as diferenças nos aspectos da forma entre subgrupos - crioulo caboverdiano, crioulo da Guiné-Bissau, crioulo de Mina e crioulos Angolares/Congoleses – forma tão importante quanto as semelhanças. O SURGIMENTO das línguas tem a ver também com circunstâncias demográficas e histórico-sociais. Assim os Portugueses levavam africanos há duas gerações para Portugal antes que estabelecessem sua primeira colônia nas ilhas do Cabo Verde. Na metade do século XVI as principais províncias do sul enegrecem-se e assemelham-se mais ao retrato de uma rua de Lisboa do que de Bijlmer. A língua dos 'recrutas voluntários', colorida pela nuance do padrão africano de consonância matriarcal, torna-se a base da fala do negro ou fala da guine (mais tarde em Curaçao: papia guene) mencionado, que tinha o seguinte significado: a maneira com que os africanos falam o português. Nos nossos dias é chamado `pidgin'. Este pidgin surgido em Portugal deu forma também a outro, a base das línguas crioulas que de acordo com Martinus, seriam faladas mais tarde nas colônias de Cabo Verde e noutros estabelecimentos lusos da África Ocidental. Assim um crioulo de Mina mostrava-se impregnado pelo twi. A primeira população da colônia do Cabo Verde era o 'gentio' (convertido, doutrinado e treinado para o trabalho braçal) escravos e oficiais voluntários. As relações mútuas ocorriam regularmente. Martinus vê relações na palavra portuguesa depósito cujo significado também remete a reservatório: o lugar onde o escravo vivia e aguardava o transporte de seus próprios produtos cultivados. Para sobrevivência do escravo, era de importância capital o aprendizado do crioulo português como segunda língua. Os portugueses temiam que o escravo se esgueirasse entre sua própria raça e falasse somente sua língua materna. O rei ordenou medidas a fim de que se evitasse tal fato. O acordo sobre a política da língua nas escolas católicas nas Antilhas, ainda hoje estipula que as crianças devam esquecer sua língua materna rapidamente para substitui-la pelo holandês, é impressionante. Martinus: 'eu tenho minhas dúvidas acerca da facilidade com que o escravo realmente aprendia o crioulo dentro dos depósitos. A princípio muitas condições importantes não foram satisfeitas pela teoria da origem da língua: muito angustiados, motivando sussurros, você aceita e entende a entrada da segunda língua numa maior freqüência. Esta interação garante que o escravo emitia algo suficientemente inteligível? Se então as línguas crioulas são mais econômicas que as línguas africanas complexas em sons, não quer dizer que podem ser aprendidas mais facilmente. Os homens devem começar usando uns aos outros como ajudantes para palavras correlatas ou da forma plural. Eu penso que decorreu muito mais tempo. Infelizmente os dados históricos disponíveis não são muito úteis. Dos muitos escravos não sabemos nem a origem, nem o destino, nem a duração do cruzamento.' NA ÚLTIMA parte de seu livro Frank Martinus decifra por meio de seu método 'arqueológico' alguns textos em guene, também chamados kanta do makamba (canto do amigo). Na Holanda dos anos cinqüenta ele fez gravações de canções guene, como a de alguém que testemunhou a abolição da escravatura ainda criança. Da escravidão mencionada na canção, o cantor falava pequenos trechos na língua dos animais e aprendia a voar (de volta à África). Como se deu o contato entre Frank Martinus e seu informante de 95 anos, o senhor Martili Pieters? Martinus: 'Ele sabe bastante, mas presume que quase tudo seja conhecido. Você nunca recebe uma resposta direta por pergunta. Por exemplo yogatina, significa jogo. Você deve deixá-lo falar, então o significado surge, mas oco também. "os papagaios cavam um buraco no monte de cupim", é o arremedo de uma canção. Olho assombrado para ele e digo que não entendo. Eu sou um entrevistador econômico. Fecho primeiramente uma estrutura lingüística e depois avanço. Eu não quero deixá-lo maluco. Kanundé significa "amigo" no crioulo da Guiné-Bissau. Mas Martili Pieters diz que significa "mestre". Isso me surpreendeu. Surge uma estória de dois amigos, um português e um africano. Obviamente amizades entre mestre e escravo também existiam.' A todo momento, humanista autodidata, Arion descreve o papel humano nas religiões africanas sem demasiado antropocentrismo. 'Os homens lidam com toda natureza, seus temores e a eternidade. Quando a mensagem ecoa, promovem-na em todo lugar' pergunto - seu estudo contribui ao humanismo ecológico da América Central? - responde apenas com um gracejo: 'eu acredito que a compreensão do amor do antilhano ao animal melhorará a compreensão do guene.' Martinus: 'Em Curaçao acabou-se o sentimento ecológico. Os inimigos das árvores e dos animais devem ser inibidos. Através das canções guene cultivei uma afeição à natureza. Nunca tornar-me-ei um fanático ativista do ambiente, pois aqueles homens são demasiado intolerantes para mim. Fazem disso uma luta exclusiva. Tenho a impressão de que pertenço a um todo maior. Em meu livro A Última Liberdade ocorre algo que eu não pude compreender, um diálogo entre um homem e uma mulher. Dizem que o barco quer ir à âncora, a âncora quer o assoalho e o assoalho agarra a âncora. Isso é animismo, a crença na terra e nas coisas. Eu sou um pesquisador que entra para se aprofundar. Uma das mais bonitas canções Guene é: foste cantar com os gatos. E a resposta do gato: fui. Uma outra canção trata do dilema da tartaruga. Vivem livre no mar, mas lá não podem colocar ovos. Para isso vão à terra, para que então possam se tornar prisioneiras. Essa canção é a mais elevada poesia'. O original em holandês está em: www.groene.nl/1997/02/bw_arion.html
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