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| | Viriato de Barros
«Identidade»

Por mim estou convencido que o CEM é neste momento o meio por excelência e o
número um desta nossa comunidade (e pelos vistos não apenas desta) a que, não
falta doutro termo mas não sem sólido fundamento chamamos lusófona.
Sim, porque a língua não é o único traço comum, mas é sem
dúvida e não por acaso extremamente importante. Estive nos Estados Unidos, na
região da Nova Inglaterra, para o lançamento do meu livro Identidade
em East Providence. A apresentação foi feita pelo Professor Donaldo Macedo, da
Universidade de Massachussets, natural da Ilha Brava, Cabo Verde, que tem obras
publicadas de muito interesse, entre as quais, Dancing with Bigotry -
Beyond the Politics of Tolerence, de autoria conjunta com Lilia I.
Bartolomé, 1999 - St. Martin's Press; Chomsky on MisEducation
(edited and introduced by Donald Macedo) Rowman & Littlefield Publishers; e
Alfabetização - leitura do mundo, leitura da palavra de autoria de Paulo
Freire e Donaldo Macedo publicado pela editora PAZ E TERRA; Literacies of
Power: What Americans Are Not Allowed to Know, 1994, e Ideology Matters (coauthored
with Paulo Freire, forthcoming), livros que poderei pôr à disposição do CEM para
o caso de os desejarem consultar. Donaldo Macedo é professor de Inglês e de
Artes Liberais e Educação da Universidade de Massachusetts, Boston. Tem muitos
trabalhos publicados nas áreas de línguas crioulas, alfabetização, bilinguismo e
multiculturalismo e foi meu aluno no que era então o terceiro ano do liceu em
S.Vicente de Cabo Verde.
Viriato de Barros

Extratos
do livro «Identidade» de Viriato de Barros, Lisboa 2001.
(...) Muitos intelectuais cabo-verdianos, na sua maior
parte já nascidos nos Estados Unidos, tinham aderido a esse movimento de
afirmação étnica. Mas a maior parte da comunidade imigrante cabo-verdiana
observava, sem intervir, o que se passava sua volta. De um modo geral não
aprovavam certas manifestações exteriores dessa forma de afirmação
étnico-política e que se traduzia, entre outras coisas, numa certa maneira de
vestir, na barba crescida que alguns jovens passaram a usar e no acentuar de
certas caraterísticas étnicas. Por vezes o conflito de gerações era agravado
pela oposição ostensiva e sistemática a determinados valores avaramente
preservados pela comunidade ao longo de várias gerações. Os afro-americanos
investigavam com um novo orgulho as suas próprias raízes étnicas. Os
cabo-verdianos mais jovens, confrontados com as perguntas dos seus colegas
negros nas escolas que frequentavam, punham essas mesmas perguntas aos pais. O
que é que nós somos afinal? Cape Verdean não é raça. Nesse enorme cadinho que
constituía a sociedade americana, um "melting pot" onde na realidade os
diferentes elementos não só não se misturavam, como viviam numa contiguidade que
era tudo menos pacífica, a pergunta assumia formas dramáticas.
— Man, what are you?
— I'm Cape Verdean.
— Yeah, but what's that, Black, Hispanic, what?
— Well, I am black. I can't speak for all the others.
— But you don't act black!
A perplexidade do protagonista deste diálogo com um colega afro-americano
perante as suas dúvidas foi manifesta ao Jaime por um jovem cabo-verdiano
nascido nos Estados Unidos, a propósito destas questões.
— Mas o que é que o teu amigo queria precisamente dizer com act black?
— É evidente que há uma maneira própria de estar na vida, que inclui um número
de gestos e atitudes exteriores, uma forma própria de utilizar a língua inglesa,
para além de hábitos e costumes que são caraterísticos dos afro-americanos.
— Percebo.
— Mas o problema que nós os cabo-verdianos nascidos na América, fomos criados de
maneira diferente pelos nossos pais e avós. Somos americanos, mas temos costumes
diferentes, falamos de maneira diferente, e é esse o problema.
— Mas não parecem ter dificuldade em aceitar os porto-riquenhos como tal, ou os
jamaicanos, ou os cubanos... e, todavia, também são de origem africana na sua
maioria. Também preservam a sua cultura.
— São mais conhecidos... dão mais nas vistas... fazem mais barulho do que nós.
(...)
— Há uma coisa que também é verdade, — continuou Jaime — os africanos trazidos
para a América à força, no tráfico de escravos da África, acabaram por criar
aqui, nas condições que todos nós conhecemos, uma cultura própria, num processo
evolutivo certamente muito diferente do que teriam seguido se tivessem sido
deixados em paz em África e que, naturalmente, os distancia daqueles que ficaram
em África. E seguiram um percurso diferente, num continente colonizado,
repartido por fronteiras traçadas pelas potências coloniais, passando por cima
das unidades étnicas constituídas pelos povos africanos, dividindo-as,
separando-as e reagrupando-as de acordo com as suas próprias conveniências e
vantagens ou por considerações de ordem estratégica que nada tinham a ver com os
interesses africanos.
— Sem dúvida. Alguns afro-americanos têm levado esse seu entusiasmo ao extremo
de tentarem um retorno a África. A maior parte dos que o tentaram, procurando
reintegrar-se nas culturas africanas foram confrontados com a sua própria
dificuldade em se adaptarem à vida africana e essa inadaptabilidade fez
despertar neles a consciência de que eram de fato americanos e de que muitas
vezes as atitudes e gestos que passaram a adoptar nos Estados Unidos, em nome da
cultura africana, não eram mais do que caricaturas dessa mesma cultura.
— Sim, mas essa era a ideia que as pessoas tinham de África.
— Certo, mas essa visão da cultura africana já vinha informada, ou melhor, se
calhar, deformada por uma série de ideias feitas inculcadas por uma visão
estereotipada da cultura africana, através de muitos filmes e de uma literatura
mais ou menos romanesca e fantasiosa.
Este género de diálogo surgia muitas vezes, quando alguém
levantava o problema da integração dos imigrantes no cadinho de raças que
recebia o nome genérico de nação americana. Numa altura em que os
afro-americanos procuravam as suas raízes em África num entusiástico esforço de
recuperação e afirmação da identidade perdida ao longo de todo o processo de
exploração escravocrata e de aculturação forçada em territórios estranhos para
onde foram arrastados corno mercadorias, os filhos daquelas ilhas da costa
ocidental africana interrogavam-se também sobre as suas origens. Mas as
respostas que obtinham eram algo diferentes das dos seus irmãos de origem.
Simplesmente porque naquelas ilhas o isolamento em relação ao seu continente de
origem tinha começado mais cedo. Os africanos para ali levados como escravos
eram "ladinizados" nesse meio, o que no fundo significava que eram "treinados"
nos hábitos e costumes dos seus amos, processo que incluía a sua cristianização,
pacientemente levada a cabo pelos missionários católicos, antes de serem
"reexportados" para as Américas e para a Europa. Um grande número de africanos
levados para as ilhas com esse propósito foi, todavia, fixado nas ilhas para
trabalhar nas plantações de algodão ali existentes ou noutras explorações
agrícolas e em serviços domésticos. Muitos fugiam, escondendo-se no interior das
ilhas e recuperando assim a liberdade, ainda que tivessem de ficar em permanente
estado de alerta, com medo de serem apanhados. As ilhas de Cabo Verde
funcionavam sobretudo como um entreposto para o tráfico de escravos entre a
África, as Américas e a Europa. Abolida a escravatura e findo, pelo menos
legalmente, o tráfico de escravos, a população das ilhas ficou mais ou menos
entregue a si própria, num relativo abandono em relação aos centros de poder do
enorme império colonial português...

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