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Viriato de BarrosCorrespondência com Otelindo Medina05.09.2002Senhor,
Eu sou muito interessado en vosso livro sobre a identitade dos cabo verdianos.
Mas ele não me da a resposta a minha primeira pergunta: porque os cabo-verdianos
não podem se definir comme latinos, mais que africanos (ou si os portugueses os permitien "portugueses")? O
termo latino nos USA signification que a pessoa est de cultura mixta, com uma organização
sociale organizada na maneira latina, e isto é o caso do cabo verde. Otelindo Andrade-Medina05.09.2002Caro Senhor Medina:
Volto a escrever-lhe, tentando responder às questões que
me pôs sobre a identidade cabo-verdiana. Fui passar as
minhas férias em Cabo Verde e estou de regresso a Almada,
Portugal, onde resido, e retomei as minhas lides
habituais. Fiquei com a sensação de não ter respondido
como desejaria, por falta de tempo no momento. Pôs-me
duas questões e eu gostaria de abordar primeiramente
a primeira a questão que me pôs: se nos definimos como
africanos e não latinos, por que é que a cultura
portuguesa tem de ser esquecida, se ela está claramente
presente? Depois, passaremos à segunda questão, se achar
bem. Relativamente à questão porque não "latino" em vez de "africano", a minha opinião é que a expressão "Latin" ou "latino", na conotação ou acessão que o termo assume nos Estados Unidos, foi e é uma designação utilizada pelos "hispânicos" - entenda-se descendentes de espanhóis miscigenados com outras etnias, que em certos casos incluem uma parte africana (porto-riquenhos, cubanos...) - como parte de uma estratégia para se defenderem da exclusão drástica a que a sociedade americana votou os africanos levados para a América como escravos e seus descendentes, mesmo após a abolição da escravatura.É da história americana, como é de outros territórios pelos europeus, que os mesmos passaram a constituir a classe dominante, a classe detentora do poder político e económico. Eram eles quem decidia sobre o destino das outras etnias, uma vez que eram eles os donos das plantações, dos meios de produção em geral, e portanto também dos empregos etc. Detinham pois um estatuto correspondente a essas vantagens. Ironicamente foram reproduzir as diferenças que deixaram na Europa, onde muitos sofriam outras formas de exclusão, onde eles próprios eram os explorados, os desprezados e os humilhados. Não tenho aqui espaço para desenvolver esta questão, por isso vou-lhe dizer que só pretendo demonstrar que já é tempo de nos libertarmos de catalogações impostas e tratarmos de nos importarmos com sermos o que nós somos. Por incrível que seja, isso não é tão fácil como parece. A minha "guerra" é só essa. Creia-me mais um amigo seu conterrâneo. Viriato de Barros10.09.2002Senhor,Eu vos agradeço para esta resposta e estou graças a você a compreender melhor. Eu já tinha notado que a classificação "hispanic" era baseada sobre a origina espanhola. Mas a classificação "latino" é mas larga e serve também para os brasileiros. E eu penso que não é uma categoria falsa porque: em oposição com os europeus não ibéricos (que consideram que o sangue dos africanos e o dos índios é impuro) os europeus ibéricos eles aceitam que uma pessoa miscigenada mas que e principalmente de origina ibérica tenha acesso à cultura ibérica. E de facto eu já encontrei muitas pessoas que tem esse "influx" de cultura ibérica. Nos descendentes miscigenados dos europeus do norte, eu nunca encontrei nimgem que tem acesso à cultura inglesa ao folklorico ingles a mithologia inglesa. Eles estão excluídos da identidade anglosaxona, isso não e o caso dos descendentes dos ibéricos. Nunca encontrei um miscigenado de origina inglesa que diz eu sou "ingles" mas eu conheço miscigenados de origina hispânica que dizem "eu sou espanhol". Eu penso que você tem razão sobre o caso da explotação inaceitável que os europeus faserao nas colónias. E isso é um problema que eu tina analisado, eu pensava que os europeus eram os únicos exploradores do mundo, mas nas minhas leituras, eu vim a ver que o esclavagem dos africanos nao começaram com os europeios . Os africanos (como os gregos e os romanos) tinhao otros africanos como escravos. (E esse problema continua hoje no sudan ,mali e mesmo os sudaneses vendam ainda escravos para arabia saudita). Eu li que os europeus compravam os escravos directamente aos chefes de guerra africanos e nunca foram buscalos no interior do continente africano. E por isso eu penso não podemos dar o monopolo da explotacao aos europeos, esquecendo a participação dos africanos no processo de esclavagem. Sobre a identidade cabo verdianna eu penso que eu vou ser satisfeito quando eu tiver a definição de "português" e de "africano". Me faltam realmente estas definições porque quando eu fui para cabo verde pois de 10 anos na europa eu tive a mesma reaçao que os portugueses que chegam lá. Eu disse que éramos africanos porque éramos mal vestidos e que muitos andavam com pés no chão e que as casa eram pequenas. Mas hoje eu tenho consciência que ser mal vestido, andar com pés no chão e morar em casas pequenas não e uma característica de africanos mas da pobreza. E por isso eu não sei em o qué nos somos africanos.Também me apoiava sobre a organização social e jurídica portuguesa que temos em cabo verde para dizer que nos somos portugueses. Mas eu conheço pessoas que vem das antilhas francesas onde tem uma organização social francesa mas isto não e suficiente par que eles se dizem de origina francesa , (não tem muitos que se dizem de origina francesa). Eu não sei o que quer dizer "português" nem o que quer dizer "africano". Mesmo assim eu estou compreendendo melhor a identidade cabo verdiana, (parece ter duas identidades separadas), ainda ontem eu entendia uma amiga dizer a sua filha que são vicente era europa. E eu ja li amilcar cabral ele diz que nos somos africanos e nunca diz que nos somos crioulos. Eu começo a pensar que tem dois cabo verdes, e cada lado esta a negar o outro. Me parece que as pessoas de são vicente estão a negar que em cabo verde tem africanos em Santiago,e em Santiago estão a negar que tem europeus em são vicente. Você me fez compreender que cada cabo verdianno tem de ser o que ele é: tem uns que são europeos e outros que são africanos (o meu problema era que eu via o cabo verde comme uma identidade e não duas, eu estava a negar o outro lado). Mas eu não sei o que quer dizer "europeo" nem "africano" eu penso que se tiver essas definições eu vou compreender se as pessoas de são vicente são verdadeiramente europeos e se as pessoas de Santiago são verdadeiramente africanos. (eu tenho de saber se esses qualificativos são só fantasias e "coqueterie" ou se são as verdadeiras identidades das pessoas).Otelindo Medina <omedina@caramail.com>21.02.2003Ola senhor,eu li,no seu site os meus messagens e encontro isso muito
"flatteur".O caso e que a migna idea progressou e estou d'accordo con
vosse. Temos de nos definir como caboverdianos antes de todo. Porque na verdade
nem somos portugueses nem somos africanos. E penso que estamos no error a tentar
nos definir so con uma parte de nos. Cada um tem de se definir si mesmo. Em
caboverde uns tem mais origina portuguesa que africana et outrous tem mais
origina africana que portuguesa et sao coisas que devemos aceitar e nao ver isso
commo um problema mas uma riquesa. Otelindo Medina <omedina@caramail.com>23.02.2003Caro Senhor Medina,Agradeço-lhe a sua mensagem e a atenção que tem dado ao nosso debate de ideias. Como eu desde o início sempre lhe disse não tenho a pretensão de conhecer respostas definitivas para as questões que me põe, mas procuro, como o Senhor Medina, encontrar, através da observação e da análise conjunta com os meus conterrâneos e com todos aqueles que por estas questões que afinal são acima de tudo humanas, comuns a todos nós, se interessam, caminhos que nos possam conduzir a um melhor conhecimento de nós próprios e a uma forma de melhor nos entendermos, libertos de preconceitos uns sobre os outros, dessa ideias feitas que nos levam a pensar que somos superiores ou inferiores aos outros por sermos constituídos desta ou daquela forma ou porque as vicissitudes da nossa história nos moldou desta ou daquela forma. Só isso. Muitas vezes me tenho interrogado, Senhor Medina, sobre as razões por que em Cabo Verde se desenvolveu uma sociedade em que apesar de sermos de origem mais diversa encontrámos em conjunto um modus vivendi que nos permitiu chegar a um ponto em que nos entendemos como um povo único. Eu sei que temos as nossas questiúnculas internas. Mas veja bem: de alguma forma temos conseguido superar as nossas desavenças entre nós. Incluindo com mudanças de regimes, com as perestroykas, os glasnosts, etc., para encurtar a história. Se estas coisas não acontecem por acaso, a mim parece-me que soberba di fora como dizemos na nossa terra, que é como dizer, sem pretensões, vale a pena estudar porquê, até para evitar que também nós descarrilemos por desvios introduzidos, ou ocorrentes na força das marés. Prazer em recomeçar o nosso diálogo. Entretanto, na próxima, tentarei responder à questão que me põe, se é que já não comecei a fazê-lo. Entretanto continuo ao seu dispor para o diálogo. Um Viriato de Barros
Senhor Otelino MedinaCaro Amigo e Conterrâneo:Relativamente à questão que me põe sobre os que tendem a ver mais a Europa em Cabo Verde ou mais a África, indo mesmo ao ponto de localizar a incidência de cada uma das características nesta ou naquela zona geográfica, vou tentar responder-lhe à sua pergunta. A minha resposta não é, naturalmente, mais do que uma opinião. Haverá certamente outras opiniões, possivelmente muito diversas. Em primeiro lugar, não me parece relevante, nesta fase do nosso percurso como povo, determinar o grau de "europeísmo" ou de europeização, ou de africanidade ou de africanização em Cabo Verde e a sua distribuição geográfica, sobretudo quando isso implica a formulação de juízos de valor sobre cada uma das situações. Trocado por miúdos, para uns há civilização e progresso quando a evolução se faz no sentido da cultura europeia, processo que outros classificam como "lavagem ao cérebro colonial", para outros o progresso só tem autenticidade quando a evolução se faz no sentido da cultura africana, que os primeiros tendem a ver em certos aspectos como regressão, ou retorno ao que consideram fases ou formas mais primitivas de civilização, entendida segundo os padrões ocidentais ou europeus.Em cada um dos casos está naturalmente implícito um juízo do valor sobre o sentido em que a evolução da sociedade se processa. E é ai que, quanto a mim, está o nó do problema. Porque quando começamos a estabelecer critérios de avaliação de culturas segundo os quais umas são consideradas melhores que outras ou superiores às outras, tudo se complica. Já nos nossos livrinhos do ensino secundário (lembra-se?) aprendemos sobre os Gregos e os Romanos, como já tínhamos aprendido sobre os povos que viviam entre os rios Tigre e Eufrates e outros ainda, como os Fenícios e os Cartagineses e vimos que esses povos andaram muito de um lado para o outro. Vimos por exemplo que a Grécia foi invadida por vagas sucessivas de povos como os Jónios, os Dórios e os Aqueus, levando consigo os seus hábitos, costumes, enfim a sua cultura e os seus genes. Mas hoje falamos em Gregos e em cultura grega e civilização greco-romana. Acho que todos aqueles povos aprenderam uns com os outros e se influenciaram reciprocamente. Os vencedores também aprenderam com os vencidos, como sabe. Adoptaram os seus deuses e os seus mitos, dando-lhes nomes latinos, como aprenderam a sua arte e a sua literatura. Os povos da Península Ibérica aprenderam com os Romanos que ali deixaram as suas estradas, os seus aquedutos, as suas construções, os seus banhos e outras coisas. Fizeram o mesmo em França e na Inglaterra. Os Árabes também deixaram a sua cultura na Península Ibérica. Este costume de migrar, invadir, ocupar, povoar, colonizar já vem de longe, sabemo-lo todos nós, mas por vezes esquecemo-nos. Não podemos refazer a história. Onde estão as raízes mouras dos Portugueses? Por todo o lado em Portugal, estou certo. Tudo se foi misturando, absorvendo-se mutuamente. O que há hoje é um povo chamado povo português: uns morenos, outros louros, outros assim-assim, cabelos lisos, encaracolados, às vezes crespos.Onde estão os Jónios e os Dórios e os Aqueus? As suas raízes vamos encontrá-las, por exemplo, na arquitectura, na arte... Não adianta falarmos hoje em "lavagem ao cérebro" feita pelos Romanos aos Ibéricos, aos Francos e aos Celtas da Grã-Bretanha, ou por osmose inversa pelos Gregos vencidos aos Romanos vencedores. A herança étnica e cultural acumulada pelos Cabo-verdianos ao longo de cinco séculos de existência como povo faz de nós o que hoje somos. Essa herança é património histórico. "Lavagem ao cérebro" é, no mínimo, uma expressão que não me parece cientificamente ser a mais adequada para designar esse tipo de fenómeno. Por esse critério as expressões de origem latina encontradas na língua inglesa, assimiladas depois da ocupação normanda da Inglaterra, bem como outros traços culturais herdados desse período não seriam mais do que produtos de uma "lavagem ao cérebro". Imaginemos o que ficaria da cultura cabo-verdiana se fôssemos "expurgá-la" de todas as influências herdadas da cultura portuguesa ou europeia como consequência da colonização. Comecemos pela nossa própria língua, o crioulo cabo-verdiano. Se retirarmos do seu léxico todas as palavras de origem portuguesa, o que ficaria do nosso crioulo? Daí passaríamos por exemplo para os métodos de agricultura, construção civil, arquitectura, alguns hábitos alimentares, vestuário, formas de organização social e cívica, religião, sei lá que mais. Que restaria da cultura cabo-verdiana, se a "expurgarmos" de tudo o que nela existe de herança greco-latina e judaico-cristã? Será que uma vez assim libertos dessa lavagem ao cérebro colonial poderíamos finalmente reencontrar a nossa cultura autêntica pela via do retorno às raízes? Deixo-lhe esta pergunta. Mas para que não diga que respondo à sua pergunta com outra pergunta, dar-lhe-ei a minha opinião, que não é mais do que uma opinião: não, por essa via não regressaríamos a parte nenhuma. Por essa via deixaríamos simplesmente de existir como povo cabo-verdiano. Procederíamos a uma espécie de desintegração étnico-cultural, de reinvenção da história, pela reestruturação dos diferentes elementos da sua construção em moldes que nos parecessem mais "correctos". Faríamos uma rectificação posterior da nossa história e forjaríamos uma nova identidade em moldes que nos parecessem mais "autênticos". Faríamos a reconstrução da nossa identidade. A maioria dos cabo-verdianos possui ascendência africana e portuguesa, a que se associam também por vezes outras ascendências, como a judaica, entre outras ainda, sendo a ordem percentual de predominância de cada uma das etnias permutável conforme os casos. A qual das raízes teria cada elemento ou grupo populacional de dar predominância pela via do retorno às raízes? Quanto mais não fosse por uma questão de justiça genealógica, se se quisesse decidir "democraticamente", teria de fazer o cálculo das percentagens de predominância de cada elemento na sua "formação" actual para decidir por qual das raízes optar, ou então optar por todas segundo um regime de quotas. Ora a mim parece-me que não podemos desdobrar desta forma o ser humano nos elementos da sua composição genética ou genealógica.O homem cabo-verdiano, no estádio actual da sua evolução ao longo de gerações é resultado de uma herança histórica, social, biológica e cultural que não pode descartar como num simples acto voluntário de escolha. É, se o posso chamar assim, uma entidade unitária. Não podemos separar uma das partes do todo que constitui a sua identidade étnica e cultural. Uma das vantagens que temos em Cabo Verde, quanto a mim, é a de nos identificarmos como uma nação, independentemente da ancestralidade étnica de cada elemento da sua população. Que esse é um traço positivo da nossa maneira de estar no mundo acho que ninguém nega. Vale a pena conservá-lo. Parecendo por vezes à primeira vista uma questão inocente, ou simples "manias" inconsequentes, a verdade é que contém em si vários riscos, e um dos riscos é o de dividir, sob falsos pretextos, aquilo que se foi constituindo ao longo dos anos numa unidade bastante coesa e sólida que é o povo cabo-verdiano. Viriato de Barros
31.05.2003bom dia senhor barros, Eu penso que nao devemos passar d'um fascismo a um outro. O
que e o fascismo? eu penso que e importante de se definir si mesmo Otelindo Andrade-Medina ---------------------------------- Comentário de VB dirigido ao CEM a 01.06.2003: Curioso, não é, apesar dos nossos protesto de cabo-verdianidade, este apego que muitos de nós temos à nossa origem portuguesa e o orgulho nessas origens. Creio que Otelino Medina se equivocou quanto à minha forma de encarar esta questão e as ideias que tentei veicular, já que penso de maneira precisamente oposta à dos que recusam a muitos cabo-verdianos o direito de se identificarem com a cultura portuguesa e de defenderem tão abnegadamente essas raizes. Vê-se facilmente que não renuncio nunca a essa raízes, antes defendo-as e cultivo-as como parte integrante e indissociável da nossa identidade cultural. Podia ser que isso dissesse respeito apenas à geração que é a minha, mas o facto de Otelino Medina ter nascido, como agora nos revela, depois da independência, parece mostrar que não é assim. As raízes etnicas e culturais africanas e as portuguesas são as duas faces essenciais da nossa identidade cultural, para além das outras contribuições. ViriatoComentário de VB enviado |