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Viriato de BarrosRegresso a Cabo VerdeTive há tempos a ocasião de poder afirmar num artigo que São Vicente deve uma certa maneira de estar como ilha a um relativo distanciamento dos sucessivos governos centrais, e isso desde os tempos coloniais. A esse relativo distanciamento dos poderes centrais correspondeu sempre uma igualmente relativa independência que nunca este livre de tentativas de correcção provenientes dos centros do poder. É certo que houve um Mota Carmo, comandante da guarda nacional republicana portuguesa de então, que foi administrador do concelho de São Vicente por algum tempo. Mas Mota Carmo exercia um despotismo que hoje se chamaria talvez cirúrgico. Uma altura, deu-lhe, por exemplo, para embirrar com as saias curtas (imagine-se!) das meninas e mesmo de senhoras da prestigiada sociedade mindelense, que não faziam mais do que seguir a moda do momento que chegava a Mindelo através das revistas da época, dos visitantes que de passagem chegavam à cidade dos navios transatlânticos que escalavam o Porto Grande, e das nossa viajantes de regresso de várias partes do mundo "sima Bia di Bibi". Portanto, era puro abuso do Mota Carmo, mas passava. E deu ordens à polícia para abordar toda a menina ou senhora que assim se apresentasse em público e intimá-las a ir para casa "baixar a bainha" sob pena de ir parar à cadeia. Um administrador que entendia que devia, entre outras coisas, zelar pela moral pública evitando esses "atentados ao pudor público". E não admitia desafios às suas ordens, como ficou provado quando por via dessa ordem foi abordada e intimada uma senhora da sociedade mindelense de conduta a todos os títulos irrepreensível, decisão que provocou justo repúdio no meio. Mas assim funcionavam e funcionam os abusos de poder e nem Mindelo esteve sempre livre disso. Mota Carmo não parecia tão pouco simpatizar muito com certas confissões religiosas que se afastavam do cristianismo mais ortodoxo digamos assim, sobretudo quando a praxis de tais confissões implicava certos tratamentos naturalistas. Acreditava mais nas vantagens da ciência médica do que em certas modalidades de banhos semi-cúbicos. Embora nunca tivesse chegado a concretizar as suas ameaças, chegou a prometer em privado que "qualquer dia ainda acabava com aqueles banhos de ... "... bem, aqui as reservas impostas pela minha educação tradicional impedem de citar Mota Cramo ipsis verbis, (ou será ipsis bibis?). Desculpem o meu latim. Todavia os mindelenses sempre olharam para as coisa deste capitão da guarda com uma certa condescendência, na convicção de que, no fundo, tratava-se de um homem rude, um tanto grosseiro na sua linguagem de caserna, mas que na realidade nunca fez mal a ninguém naquela terra. Era um homem que jogava, apesar de tudo, segundo consta, com lealdade e tinha um certo sentido, ainda que grosseiro, de humor, dois traços de carácter que os mindelenses sempre apreciaram: "fair play" e "sense of humour", passo os anglicismos, irresistíveis nas circunstâncias. Mas Mota Carmo foi um caso singular, até certo ponto, na história mindelense. Pode dizer-se que, de um modo geral, S. Vicente nunca foi terreno muito propício - por razões já aqui aventadas como hipóteses de explicação - para a instalação de prepotências ou onde as arbitrariedades do poder se pudessem hospedar com comodidade. Havia sempre reacções populares ou mesmo individuais incómodas que, mau grado a vigilância das autoridades civis ou da polícia política iam minando as veleidades autocráticas de eventuais caciques locais ou de enviados de centros mais distantes do poder. Veja-se, por exemplo, o poder corrosivo que as peças de Nho Djunga transmitidas pela Rádio Barlavento tinham. Mas deixemos São Vicente e passemos à Praia. O regresso à cidade da Praia, após dezena e meia de anos desde oitenta e cinco tem inicialmente um efeito de choque. Choque salutar. Do ritmo cauteloso, compassado, de crescimento dos primeiros anos da independência, entrou-se em andamento acelerado e descompassado na ressaca das perestroikas. Um salto abrupto de uma economia mais ou menos planificada, ou tentativas disso, para uma economia de mercado aberto ou de crescimento espontâneo, livre de qualquer "correcção torrencial". Por toda a parte se compra e vende, por toda a parte se constrói. Das resistências algo fóbicas às tentações do turismo soltam-se as rédeas a mais esta fonte de rendimento não necessariamente nacional. Não, não vou reabrir aqui o debate entre as vantagens e desvantagens da economia de mercado ou outras. Não é vocação desta coluna, ainda que recuse a hipocrisia de a considerar apolítica. Tentarei nesta coluna situar-me para além das águas que marcam a fronteira entre o político e o politiqueiro (precisamente esse que rima com chiqueiro). Chega. Queria aqui afirmá-lo claramente que ao voltar à cidade da Praia de Santa Maria com uma distância de uma dezena e meia de anos, não podemos deixar de nos impressionar com as marcas de criatividade evidenciada pela população praiense, e por toda a ilha de Santiago. Desordenado, certo, indisciplinado, certo, mas preferível sempre à estagnação, ao imobilismo hesitante de quem espera que os outros, incluindo essa entidade chamada Estado, façam por nós. Jugo que valeria a pena reflectirmos um pouco mais sobre este processo de crescimento urbano e rural e das transformações que lentamente se vão introduzindo nesse modus vivendi entre os chamados valores tradicionais da sociedade cabo-verdiana e a pressão consumista sobre o visível aumento de poder de compra da população ou do seu poder de aquisição de bens pelo crédito ao consumo. Numa sondagem ensaiada empiricamente em meios mais ou menos representativos apuram-se algumas queixas. E vamos ouvindo: "muito desenvolvimento, é certo; salta à vista." "Um surto impressionante de construções. Casas por todo o lado incluindo o interior da ilha. Jovens bem vestidos, segundo os últimos modelos da moda. Não parece haver falta de nada." Emigração, dizem. Mas referem-se outras fontes de mais valia. Fontes fora da lei, dizem os mais atentos e os menos atentos. "Negócios, muitos negócios...as estão a perder-se valores... há muita falta de respeito. Não há educação... Nem nas escolas... alunos não respeitam professores... tratam-nos tu cá, tu lá e empregam palavrões sem conta...". " Já se mata em Cabo Verde ... droga... Há muitos assaltos. Já não há segurança, como havia. Muita droga, Muita traficância. Não há controle suficiente..." "Mas isto está assim em toda a parte." - vai-se dizendo, a título de justificação. "Mas há mais... a cidade da Praia era mais limpa... Mais limpa que São Vicente... agora é o contrário...". Que aconteceu? Porquê? As explicações variam e divergem, desde os que acreditam num desinteresse congénito pela limpeza como um dado cultural, aos que acham que o populismo substitui a autoridade cívica e aos que acham que se trata no fundo de um problema de educação, que começa no seio da família e continua nas escolas e se expande para a comunicação social e outros meios. Há aquilo a que se pode chamar um compromisso colectivo, que em termos mais simples se traduz em expressões como brio, capricho, gosto de fazer bem as coisas. No fundo uma espécie de auto-estima colectiva que inclui tanto "badios" como "sampadjudos", honra seja feita.
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